12

DIAS DE FOLGA

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Elda

Bartolomeu

Carola

Fernão

Brísida

Tiago

Marcello

1

Os impulsores de novo no cemitérioComeçava sempre assim os seus domingos. Escolhia um disco que punha a tocar um tudo-nada mais alto do que a prudência recomendaria àquela hora e entretinha-se a trautear canções, enquanto imaginava o que faria para o almoço. Dois ou três vizinhos conheciam-lhe a mania, mas já se tinham resignado às suas extravagâncias. Marcello nunca dera por nenhuma animosidade. Estava convencido de que era estimado pelas pessoas com quem se cruzava no corredor, que o tratavam sempre com um misto de simpatia e desconcerto. «Mas os portugueses mesmo são estranhos», dizia por vezes a Bartolomeu, se alguém lhe dirigia um sorriso mais condescendente.

Abrira a janela, ouvia-se o martelar da chuva na cobertura da cidade. Começavam os dias de folga, a que também ele tinha direito. O projecto já se aproximava do meio-termo sem resultados, que poderiam ter sido obtidos logo na primeira semana, caso tudo tivesse corrido como previsto. Não faltavam empecilhos ao seu trabalho, e os adolescentes eram sempre uma fonte de problemas em potência. Marcello não se iludia: havia tensões no ar, os ânimos em ebulição. Tinha em mãos o equilíbrio de condicionantes frágeis mas, apesar de tudo, a barca navegava.

Andiamo avanti!, decidiu. Entregou-se àqueles acordes melancólicos, que conhecia bem, e foi acompanhando, no seu inglês sofrível e numa desafinação completa, «The First Cut Is The Deepest», sobre a voz de Cat Stevens. Não tardou a deixar-se empolgar, como sempre acontecia, e, a meio da faixa, Bartolomeu apareceu na sala. Marcello assustou-se, soltou um grito: outra cena típica.

Estremunhado, em pijama, com a voz roufenha, o rapaz queixou-se:

— Marcello… São oito da manhã! Por favor!

O tutor baixou o volume, envergonhado, numa atrapalhação de gestos.

— Pois, pois… desculpa, não achava… Dormiste bem?

— Estava a dormir bem! — resmungou Bartolomeu. — Agora já não!

Era generoso o bastante para fingir que tais cenas embaraçosas não existiam. Sentou-se à mesa a tomar o pequeno-almoço, a imaginar que os próximos dias seriam um pesadelo para os vizinhos: naquela tarde, ele iria com Carola para o apartamento de Tiago, e Marcello ficaria livre para fazer estragos.

— Almoças com teus pais hoje? — perguntou o tutor, ainda corado.

— Não, a avó da Carola convidou-me. Já vejo os meus pais na quarta. O jantar…

Aquele jantar organizado entre famílias era um espinho cravado no meio da sua semana de férias. Finalmente, o momento de conhecer a noiva. Marcello, que durante meses observara as reacções do rapaz, atreveu-se a abordar o assunto:

— Eu sei que sentes que é cedo para o casamento. Mas se não era Sofia? Se era… não sei, Brísida? Achas que tinhas… achas que seria diferente?

Bartolomeu sentiu-se vacilar. Não percebia bem a pergunta, e por um momento julgou que tinha de dizer que sim. Mas confessou a verdade:

— Acho que não. — Marcello estava a ouvi-lo, mas continuou a tomar o pequeno-almoço, sem dar de si. O rapaz prosseguiu: — Eu sei que era suposto, mas… não tenho vontade de estar com ela. Assim, dessa maneira, percebe?

Bartolomeu falara mais depressa do que queria, e retraiu-se logo.

— Tudo bem. Nada é suposto. — garantiu o tutor. — Queres falar sobre isso?

Ele recusou, e Marcello mudou de assunto: que lhe contasse mais então sobre o apartamento que o Conselho lhes disponibilizara para as férias.

A verdade é que, se no início a imposição de Morgana Derves o contrariara, a companhia de Bartolomeu agradava-lhe. Aliás, e por mais que estivesse consciente de que não o devia ter feito, apegara-se a cada um dos seus impulsores.

Agora, faltava uma semana. Marcello sondara as instâncias competentes, em busca de um substituto para acolher o fantasma de Flávio Hirpo, marcara a viagem para Copenhaga. Mas não se decidia a solicitar claramente a intervenção da Bóreas, protelava o envio do requerimento, como se um recurso de último minuto lhe permitisse prescindir da intervenção estrangeira. Não era realista, e tinha de manter-se lúcido, o único imperativo era a transmigração. Quando Tiago abandonasse o Rest.2, os seis verdadeiros impulsores viveriam, por fim, uma interacção plena. Nesse momento, o projecto seria bem-sucedido. Já não teria de se preocupar com nenhum dos inimigos com que se defrontara ao longo daquele período: o Conselho, as famílias, os dramas adolescentes. Nada disso representaria a mínima ameaça.

Eram só mais oito dias, pensou o tutor. Que os miúdos não se metessem em sarilhos por mais oito dias.

 

*

 

Tinham passado o Saldanha, estavam a chegar à Duque d’Ávila. Agora, todos os dias, no fim do trabalho, Fernão juntava-se a ela e acompanhava-a em silêncio até casa. Evitavam tapetes móveis, caminhavam devagar pelos passeios descalcetados, a ver passar de vez em quando o eléctrico. À altura da 5 de Outubro, havia uma racha nas placas de vidro-núbilo, que alargava a cada dia. Segundo o pai dela, as reparações pela noite dentro não adiantavam nada, era necessária uma intervenção estrutural. Elda não podia perceber aquela ciência.

— É aqui — indicou ela, encostada à porta do prédio verde, como se fosse possível ter mudado de casa durante a noite.

Ele nem respondia. Espalmava a mão esquerda contra a porta, o braço por cima do ombro dela, fitava-a com aqueles olhos mudos e penetrantes. E Elda sentia-se presa numa emboscada, procurava uma saída sem querer realmente ser salva.

Mas, nesse momento, três pancadas fortes bateram na porta.

Júlia Visco entrou no quarto, com uma inquietação nos lábios, e acendeu a luz sem pré-aviso. Elda protegeu a vista com o braço, virou o corpo todo para o lado esquerdo da cama.

— Ó filha, outra vez? É que passas o dia todo metida na cama, e sempre às escuras! Achas que são maneiras?

— Só mais cinco minutos. Por favor, a luz… dói.

— Estás de férias. Não achas que podias arranjar uma coisa mais construtiva para fazer…? Sempre aqui estendida, não é normal. E logo hoje…

— É que ainda estou cansada. Já vou ter contigo. Desliga a luz, por favor.

Júlia acedeu, afastou-se a resmungar pelo corredor, mas deixou a porta aberta. Elda teve de levantar-se para ir fechá-la e, ao voltar para a cama, veio-lhe uma ligeira tontura pelo movimento repentino. Fechou os olhos, podia recomeçar.

Desta vez, estavam ali, no seu quarto, mas os pais não existiam. O trabalho, ou umas férias sem ela, ou tinham voltado para Coimbra: qualquer coisa. Só os dois no quarto vazio, ela estendida de bruços na cama, e ele sentado no chão com as costas apoiadas, a centímetros de distância. Mas só uma conversa, não havia mal.

— O Tiago convidou-me, mas prefiro ficar sozinho. Tu também não foste…

— Devias era ter ido para Setúbal — opinava ela, sem ligar à referência velada àquela exclusão. — Já falaste com a tua mãe?

— Liguei-lhe ontem, disse que afinal não dava. Aquela casa já não é minha. — Então Elda ficava sem saber o que responder, e ele sossegava-a: — Não tens de dizer nada, não estou à espera de consolo. É que sei que tu me entendes.

Fernão suspirava, pousava a cabeça na colcha. Ela penteava-lhe os cabelos com as mãos, devagarinho. Os olhos dele espelhavam uma tristeza comparável à sua. Seria tão bom se pudessem ficar fechados naquele quarto para sempre. Fernão continuou:

— E depois, para quê? Ia para lá fazer de conta que está tudo bem?

«Toda a gente faz de conta»: dizia-lhe, ou era uma frase estúpida? Elda ponderava numa alternativa, mas a voz da mãe gritou o seu nome, vinda da entrada. Resolveu-se:

— Comigo não tens de fazer de conta…

Aquilo funcionava. Fernão partilharia com ela um olhar triste, de desdém pela humanidade inteira, excepto por ela. E seria um reencontro, a confirmação de que andavam os dois de esguelha, como ele intuíra logo no início do projecto.

Desta vez, era voz grossa, «ó Elda», o pai tinha chegado do trabalho. Não havia como escapar à chamada. Elda ergueu-se, estonteada, tacteou os móveis na escuridão. Abriu a porta e foi-se arrastando até à entrada, a tentar acostumar os olhos à claridade.

— A fidalga dormia! — O pai vinha com ruidosa boa disposição. — Tomara eu… Mas burro de carga não tem descanso. Carrega, galego!

Ela fez um meio sorriso, estava pronta a dizer que sim a tudo. Júlia, por sua vez, procurava chamar a atenção do marido, sem que Albano atinasse com o motivo. Teve de o lembrar, em surdina, mas, como sempre, falava mais alto do que julgava:

— Os anos dela…

— Ah, pois é! — Albano abriu os braços, num espalhafato. — Eu sei, sei muito bem. Anda cá, filhota, parabéns. O papá não esquece.

Naquele dia, Elda cumpria dezassete anos.

 

*

 

Alcançado o clímax, Fernão afrouxou a intensidade com que segurava os braços da companheira e rolou sobre si na cama. Ainda ofegante, acendeu um cigarro e deixou-se ficar a fumar. Elda torceu os pulsos, como se ele a tivesse magoado, depois sentou-se à sua frente, lançou-lhe um olhar condoído.

— O que foi, piolho? — perguntou ele, com um sorriso terno e malicioso ao mesmo tempo. — Estás-me a micar?

— Não, eu… — a rapariga baixou os olhos, como que envergonhada do arroubo de felicidade. — É que… tu fazes-me sentir tão… tão…

Fernão lançou-lhe uma baforada de fumo, beijou-a com ferocidade. Percorreu o rosto dela, os cabelos, numa carícia desajeitada.

— E tu fazes-me sentir. Ponto final.

Elda soltou um queixume enquanto a mão dele lhe pressionava a nuca. Insistiu:

— Tu… Hoje à noite não podes mesmo?

— Shhh… Não, hoje não. Vá, não fales — pediu Fernão.

Era melhor quando ela não dizia nada. Só uma presença, o mais real que tinha ao seu alcance, aquele fantasma com ares de família. Dali a pouco a interacção chegava ao fim, ela teria de se ir embora, mas por enquanto sobrava tempo.

— E se fôssemos para outro sítio? A ponte? — sugeriu ela.

— Não, agora não. Sossega…

Seguiu-se outro longo tempo morto. Como era de norma naqueles momentos, a tristeza invadia-o aos poucos. Fumou mais dois cigarros, reprimiu uns suspiros. O irmão passaria por Lisboa naquela noite, de novo com planos a que não se conseguia furtar… Que fazia ele das suas férias? Deixara os colegas pensarem que tinha ido para Setúbal para passar dias consecutivos ligado ao módulo. Não havia nada além daquilo. E também aquilo… Se ao menos Elda, aquela Elda, se limitasse a estar presente, sem reclamar a todo o instante que ele activasse uma ficção.

— Fernão… então! — ouviu-a lamentar-se, mais uma vez.

— Shhh… — pediu ele de novo. Que ficasse em silêncio.

— Ora bolas, assim já não tem piada — disse a rapariga, e levantou-se de repente, numa reacção brusca que destoava da personagem. — Estás um chato.

— O que é que tu queres? — também ele se deixou vencer pelo mau humor. — Achava que tínhamos chegado a um entendimento.

— No início, sim. Mas agora é só cama e cigarros. Mais cigarros do que cama, aliás. Com a chinesa sempre eras mais divertido.

Fernão encheu-se de raiva. Elda jamais usaria aquela linguagem.

— Não te atrevas a falar dela! Tu deste cabo de tudo.

— Eu… está-se a ver! Eu é que dei cabo de tudo! Tens muita lata.

— Lata?… Eu é que tenho lata…

Numa associação idiota, lembrou-se da lata de cerveja vazia que aquela companheira, sob as vestes de Lisa, atirara para o rio, semanas antes. E veio-lhe uma repugnância pela vida que vinha conduzindo, naquele conluio sórdido.

— Olha, sabes que mais? Isto acaba aqui. A sério.

— Achas que me vais despachar assim? Já te fartaste? — Mostrava-se quase ofendida, mas retomou a voz de Elda. — Fernão… Tu usaste-me…

— Pára com esses jogos. Já chega. Não sei quem és, mas não és como ela. Não quero continuar, percebes? — Dizê-lo soava como uma libertação para Fernão. Sentia o peso daquelas palavras, repetiu: — Já não quero continuar. Acabou, caiu a máscara.

Ficaram uns segundos parados, cada um do seu lado da cama. E então a sua interlocutora decidiu pôr as cartas na mesa:

— OK. Então queres ver a minha cara a sério?

Ele nem ponderara a hipótese. Quando se virou para ela, descobriu uma rapariga atraente, de olhos verdes, longo cabelo castanho-claro.

— Mas… eu não te conheço! — espantou-se o rapaz.

— Porque não queres juntar dois mais dois. Sou a Teresa, a irmã do Tiago.

Fernão recuou à noite em que o colega lhe pagara para que começasse a ligar-se ao Rest.1 através daquele módulo velho. Dissera-lhe que a irmã era engenheira da Bóreas, precisava aceder a informação. «Ela só quer compreender o que se passa.» A partir de que momento decidira azucrinar-lhe a cabeça?

— Para ti, isto é só um jogo. Não percebo o que queres, mas não confio em ti, nada mesmo. Desta vez é a sério, quero sair. A minha dívida está paga.

Teresa mediu a seriedade das intenções dele. Ia perder aquela fonte de informação, que tanto lhe custara a manter.

— A sério, não volto a este módulo — asseverou Fernão.

— Ouve só uma coisa, então. O Tiago já não atende os meus telefonemas. Preciso de falar com ele aqui, mais uma vez. Não, espera, é importante, eu posso ajudá-lo a recuperar a memória. Ouve lá, é meu irmão. Por favor, só quero que o convenças a vir falar comigo, tu nem precisas de te ligar.

— Está bem — Fernão demorou a vencer a reticência. — Por ele, ouviste? Mas é só isso. Transmito-lhe o recado. E entre nós, acabou.

 

2

A mãe passara-lhe a camisa a ferro, e Bartolomeu escolhera a gravata bordeaux do pai, a única em condições. Sofia fora contactada a propósito das flores. Vinham os pais dela, iam os pais dele. Uma coisa a sério.

Tinham o restaurante praticamente à disposição: poucas pessoas se podiam dar ao luxo de jantar fora, e muito menos na avenida de Roma. Mas Raul Zarco insistira, era ele quem convidava. Tinha meios, ocupava um alto cargo na gestão de recursos, e fazia-o saber logo em início de qualquer conversa. A viagem a Lisboa, no entanto, realizava-se sob o patrocínio do Conselho: a família tinha direito a alojamento, assim como ao frete do veículo que a trouxera de Faro. Medidas compensatórias: não fosse a convocação da Bóreas, e naquela altura Bartolomeu já estaria a exercer em Faro, e casado.

Uma mesa redonda, colocada no centro da sala, acolhia os convivas. Sandro Trenas, o pai de Bartolomeu, acordava o velho fato de fazenda cinzento com a barba grisalha. Marisa, a mãe, retirara o melhor vestido do roupeiro, mas baixava a voz quando falava com a futura comadre para gabar as qualidades do filho. A aparência esmerada de Amélia Zarco, assim como a reserva natural dos seus gestos, contrabalançavam a expansividade e os trajes vistosos do marido. Bartolomeu, que sentia desde a véspera uma dor maçadora no pescoço, respondia aos elogios da mãe e às solicitações do casal com uma expressão comprometida. Era no entanto em Sofia, a pequena noiva sentada à sua frente, que o seu olhar aflito tropeçava. Não se podia negar que fosse bonita, mas tinha quinze anos, e demonstrava-os bem; em Janeiro ele cumpriria dezoito. O carácter de Sofia era uma simbiose do dos progenitores: sabia observar tudo à distância, com discrição, mas bastava uma palavra para trair o recato e extravasar numa loquacidade infantil.

— Então, quando é que te libertam dessa brincadeira da Bóreas? — perguntou Raul Zarco a Bartolomeu, com um tom de voz ruidoso.

— Ainda sete meses.

— Vão passar a correr. Num piscar de olhos, pões-te lá. O pessoal do hospital já toma decisões a contar contigo.

— Ainda não sei qual será a atribuição — esquivou-se o rapaz.

— Qual, são favas contadas. Sabemos que és talhado para a medicina.

— Filho de peixe sabe nadar! — declarou a mãe do rapaz. — Que o Sandro sempre o preparou para isso.

— Trabalho bem feito, sim senhor — e Raul dirigiu-se ao médico: — Criou-nos um rapagão, doutor. Mas agora roubamos-lhe o filho. Não há que mentir, é uma rapina!

Sandro respondeu à pilhéria com um esgar que revelava apenas a sua incapacidade em sociabilizar. Marisa interveio pelo marido, constatou a passagem do tempo. Parecia-lhe que ainda na véspera Bartolomeu «usava fraldas». Depois, motivada pelo rumo da conversa, não achou inoportuno referir-se aos futuros netos.

Bartolomeu imaginava que também Sofia se sentiria constrangida por aquelas alusões descobertas à sorte de ambos. Mas ela não parecia incomodada. Sem entrar na conversa, seguia atentamente o que se dizia. E, vez por outra, atrevia-se a pregar os olhos nele, com uma espécie de sensualidade gaiata que o perturbava.

O jantar falhou o propósito de um conhecimento mais profundo entre os noivos. Os adultos dominavam o diálogo à mesa e, sentindo-se sob observação, Bartolomeu não encontrou tema para entabular conversa com Sofia. Só mais tarde, quando acompanhava os visitantes ao alojamento, se viu a sós com a rapariga, e esta falou-lhe da escola:

— Eles as faltas facilitam. Era importante vir cá. Agora, já não me vou casar com um estranho — e soltava uma risadinha, como se o futuro fosse uma brincadeira.

Bartolomeu respondeu com um sorriso amarelo. Procurava alguma coisa para dizer, sem encontrar. Só queria que aquilo terminasse depressa. Ela, pelos vistos, não:

— Amanhã só parto depois do almoço. Ainda nos vemos?

— Ah, que pena. Amanhã não posso. Tenho de ir para o Instituto — mentiu ele.

— A sério? Achava que vocês estavam de folga. Tens de fazer o quê?

— Desculpa, não dá para falar muito sobre isso. Temos uma cláusula…

Ela não reagiu logo, mas via-se que não ficara agradada.

— Está bem, eu percebo, eles devem chatear-te com isso. Mas não ligues, é só uma questão de meses. Quando estivermos casados, vamos poder partilhar tudo. Também é um contrato, também temos cláusulas. Ninguém pode alterar isso.

 

*

 

Tiago estendeu uma manta por cima de Carola, que dormia no sofá da sala. Sentia-se cansado, mas a noite para ele ainda ia no início, já sabia que não conseguiria adormecer antes das cinco ou seis da manhã. Encostou a cabeça aos vidros panorâmicos, a adivinhar o Tejo na escuridão, o traçado da ponte que o luar desenhava. De dia era estupendo, a divisão inundada de luz, o cintilar das águas, mas ele quase preferia o mistério daquela hora, sem a visão da cidade decrépita. Ao terceiro dia no apartamento de Alcântara, sentia que lhe faltava o ar.

Porém, em vez de abrir a janela, avançou pelo corredor entrevendo divisões vazias: ginásio, cinema, banhos. Parou diante da porta dos fundos e, antes de ingressar no compartimento, programou a realidade da sala óptica. Os olhos acreditavam depressa no que viam; Tiago afundou os pés na superfície esponjosa, esperou pelo momento em que as ondas vinham rojar aos seus dedos. Então, sentou-se na praia às escuras, exposto àquele frio agradável, de olhos perdidos no horizonte que se substituía às paredes. Partiu com as mãos a tablete de chocolate, e levou um quadrado à boca. Deixou-se ficar ali parado, à espera que o tempo passasse, até que o som de passos na areia lhe veio indicar que Bartolomeu voltara do jantar com os pais.

Para quem conhecia o Rest.2, o efeito dos hologramas não era muito impressionante. Mas, na penumbra de um quarto fechado, lado a lado com outra pessoa, sem o intermédio de fantasmas, o retumbar contínuo das ondas prometia uma realidade. Tiago tocou no oceano, a mão continuou seca.

— Quem me dera que estivéssemos numa praia a sério… — disse ele.

— Também eu. Mas não podemos mudar o mundo — replicou Bartolomeu.

Não houvera outro cumprimento entre os rapazes, e Tiago manteve-se calado um bocado. Aquela asserção ressoava nele, revoltava-o. Certamente Bartolomeu já sabia que Carola lhe revelara os planos do Conselho, mas ainda não tocara no assunto.

— Porque é que não me contaste nada? — decidiu-se a perguntar.

Bartolomeu suspirou. Na escuridão, era impossível ler se o rosto dele denotava temor ou alívio por enfrentar a verdade. Mas confessou, hesitante:

— Não sei.

Não era a resposta que o outro queria ouvir. Reagiu, quase zangado:        

— As coisas não deixam de existir por não falarmos delas, Bartolomeu.

Levantou-se, deu dois passos. A praia parecia não ter fim, mas a porta estava já ali ao lado, não dispunha de uma real liberdade de movimentos.

— Também tenho de te contar uma coisa — disse ele, e sentiu a voz fraquejar-lhe. Era inadiável. — Para a semana, quando voltarmos ao Instituto, saio do projecto.

— Tu… o quê?

— Não fui eu que decidi… Não te posso explicar porquê, não depende de mim. Mas é assim, tem mesmo de ser. A minha participação acaba aqui.

— Mas como?... Vais-te embora?

— Não sei. Não sei o que vai acontecer. Só sei que tenho de sair do projecto a meio. E isto… É uma estupidez, mas sinto-me tão vazio, não imaginas…

Na escuridão, uma mágoa desmedida apoderou-se de Bartolomeu. Oh, sim, podia imaginar! Sentia a mesma coisa. O peito apertou-se de repente, ficou com a garganta presa, os lábios secos. Tiago era o seu melhor amigo, sabia isso, mas não se justificava. O coração acelerado, os dedos gelados. Não se justificava. Levantou-se, tentou ganhar controlo nas pernas bambas:

— É que… é porque o Rest.2 é importante para ti — balbuciou Bartolomeu. Ouvira um soluço entre as ondas, e precisava encontrar uma razão para a tristeza do colega, visto que não havia nenhuma para a sua. — É como um mundo, uma pessoa habitua-se a viver ali. É por isso… é por isso que te sentes assim.

— O Rest.2 não me importa nada — contrapôs Tiago, sem diplomacia. — Não é isso, não há lá nada que… A única coisa que me interessa no projecto é… és tu.

Tiago calou-se. Bartolomeu avançou a mão na sua direcção, mas retraiu-se, suspendeu-a no ar. Porque é que a notícia daquela partida o deixava assim? Era como se o mundo fosse acabar. Se Fernão abandonasse o projecto, sofreria o mesmo desgosto? Sim, disse para si mesmo, eram amigos, e os amigos pensam uns nos outros, é normal. Seria normal ter vontade de dar um abraço a Fernão se soubesse que ele se ia embora. Apoiou a mão no ombro de Tiago e, com o coração a bater, passou-lhe um braço pelas costas, puxou-o contra si. Fechou os olhos, à procura de uma frase afável, como imaginou que diria a Fernão, «Vou ter saudades tuas, pá» ou algo assim, mas a voz falhou-lhe. Sentia o corpo dele apertar-se contra o seu, os braços que o agarravam com firmeza, o contacto do cabelo no seu rosto, o cheiro daquele pescoço que podia roçar com o queixo mal aparado.

— Gosto de ti. Gosto mesmo de ti — ouviu Tiago dizer, e agora o coração batia-lhe ainda mais depressa, mas era bom.

O som estridente de uma campainha interrompeu-os. De imediato, a praia desapareceu, as luzes acenderam-se, estavam num quarto vazio. Bartolomeu afastou-se logo, abandonou a sala, foi até à entrada. Através do visor da porta, identificou Marcello. Respirou fundo, pousou na maçaneta uma mão que tremia.

— Marcello! O que se passa? — perguntou, fazendo-o entrar.

— Uma desgracia — disse o tutor, abalado. — Uma desgracia.

Carola, estremunhada, levantava-se do sofá.

 

*

 

Continuava a ser a sua igreja preferida, e aquela que a família frequentava desde sempre. Na Cedofeita, entre pedras nuas, Brísida sempre conseguira sentir uma presença divina. Estava sentada diante do altar e ouvia os murmúrios da mãe, que rezava ajoelhada no banco do fundo. Úrsula insistira com ela para se confessar ao padre Américo, que a conhecia desde criança, mas desta vez Brísida não acedera. Que já o fizera em Lisboa, antes de vir, estava limpa de pecados.

Sentia-se esvaída, como se tivesse perdido a fé juntamente com o juízo, depois daquela exposição de breves minutos ao Curriculum. O que vira contradizia Deus. Imaginara-se mais forte do que tudo, mas não estava acima das regras do universo. Perante elas, o seu poder era mínimo.

Segurava a foto da avó Miriam que encontrara numa gaveta de casa dos pais. Trinta anos tinham passado desde a sua morte. Familiares afastados que tinham vindo assistir à missa falavam agora com o padre à porta da igreja. A mãe aproximou-se, olhou para o retrato e notou:

— É a tua cara chapada.

— Pois. A linha da vida, não foi o que disseste? — Brísida recordou-se da expressão que a mãe usara dias antes.

A mãe sorriu com uma expressão beata, e Brísida ousou perguntar:

— E quando a linha acaba? O que é que acontece?

— Nunca acaba. Existe a vida eterna.

A rapariga guardou de novo a fotografia da avó na carteira. Naquele momento, não se sentia apta a manejar tais conceitos.

— Agora, apetecia-me voltar para casa.

Cumprimentou o padre Américo, que ciciava palavras infestadas de diminutivos, e as comadres, as tias, as amigas da mãe. Sentia-se tão distante daquele mundo, como se se tivesse passado vinte anos fora, e não cinco meses.

Os tapetes móveis do Porto eram mais modernos, mais espaçosos, mas percorriam-nos muito menos utentes do que em Lisboa. Úrsula empenhava-se em pô-la a par das mínimas alterações na cidade: fazia parte da associação de munícipes, era muito activa. Falou longamente de um dos casos que ia defender no tribunal, do casamento da filha da vizinha. Depois, perguntou-lhe pelas amigas de liceu. Mas Brísida pouco sabia, em Lisboa apoiara-se em Verónica, fizera poucos esforços para manter o contacto. O trabalho também lhe deixava pouca margem.

— O bebé é para quando?

— O quê?

— A tua irmã está de quantos meses? Seis? Sete?

— Ah… sete. Está de sete meses.

— Não se esperam complicações, pois não? Isso já passou?

— Já passou. Só repouso, por precaução.

Estavam a aproximar-se de casa. Mesmo sem pronunciar o nome, era a primeira vez em muito tempo que Úrsula se referia a Verónica com outro intuito que o de a recriminar. Brísida sentiu-se aliviada, era como se recebesse um sinal de que as coisas podiam melhorar, ser menos ilógicas.

No entanto, ao chegar ao seu prédio, a presença da carrinha da Bóreas intrigou-a. O pai estava à porta, com cara de caso. Alguma coisa se passava.

— Brísida, vais ter de voltar para Lisboa — avisou-a Horácio sem demoras.

 

3

— A sério que não me apetece nada, vó. Uma casa do Conselho…

— Não interessa de quem é a casa, és convidada do Tiago. Vai fazer-te bem, Carola. Vai fazer-nos bem às duas estarmos um bocado separadas — garantira Dara.

Fora a última conversa que Carola tivera com a avó, antes de partir na carrinha que a levaria, juntamente com Bartolomeu e Tiago, para o apartamento de Alcântara. Não parava de a reproduzir na sua cabeça.

Percebeu que Bartolomeu, sentado a seu lado, lhe fizera uma pergunta. Há quanto tempo voltara ele da cozinha? Levantou a cabeça, meio perdida.

— Se não queres, pelo menos bebe o copo de água — pediu o amigo. — Não bebeste nada o dia todo.

Bartolomeu estava com olheiras, notou Carola.

Pegou no copo, deu dois goles, ao terceiro pensou outra vez que Dara não voltaria a sentar-se naquele sofá. A sua avó morrera. Quase se engasgou.

— Foi há dois dias… — Carola contava para trás com os dedos. — Quarta, terça… O que é que estávamos a fazer na terça à noite?

— Não me lembro, Carola, os dias eram todos iguais.

Carola deu um longo suspiro. Os olhos doíam-lhe de chorar, mas, quando voltou a cabeça, a sala pareceu-lhe mais vazia, não conteve um soluço. Bartolomeu passou-lhe o braço à volta do ombro, mas ela não cedeu. Sentia-se exausta.

— Onde é que eles estão? — perguntou, passado um momento.

— O Marcello está a tratar de tudo com a vossa vizinha — e, ao dizer isto, passou pela cabeça de Bartolomeu que aquele pronome, no plural, já não era adequado. — E eu disse ao Tiago para ir para casa, achei melhor.

— Fizeste bem. Prefiro ficar só contigo.

— Mas talvez agora pudesses dormir um bocadinho…? Eu fico aqui.

Era uma casa enorme, pensou Carola. Uma casa enorme que a partir de agora era só para ela. E havia um degrau partido na escada. Passou mais de um minuto antes que respondesse:

— Não sei se consigo, Bartolomeu.

— Está bem, não tens de dormir. Só descansar. Encostar a cabeça.

— Não: não sei se consigo passar por isto outra vez. O meu pai, a Mónica… Agora a minha avó… — enumerou Carola, muito séria, enquanto as lágrimas recomeçavam a rolar. — A minha avó. Estava viva no domingo, tu viste.

— Pois vi. Era formidável, a tua avó — Ele estabeleceu contacto novamente, e desta vez ela deixou cair a cara no seu peito, agarrou-se-lhe aos ombros, chorou.

— As coisas não correram bem nos últimos meses — confessou Carola, entre soluços, incapaz de se mexer. — E tivemos uma zanga… Mas agora estava ultrapassado. Estávamos a dar-nos bem e… Oh, Bartolomeu, o que é que aconteceu?

Era o lado mais desarmante daquele infortúnio. Filomena, a vizinha, fora encontrar o corpo de Dara Jurado, sem vida, no meio do chão. Um derrame cerebral, rápido, fatal.

— Eu sei que é duro. Mas eu estou aqui — Bartolomeu acariciava o cabelo da amiga, repetia num sussurro: — Estou aqui, Carola.

— Não… Chama-me Cenoura — pediu ela baixinho.

 

*

 

Brísida entrou na capela, fez o sinal da cruz. Fernão estava perto da porta, vestido de escuro. Veio ter com ela. Por um minuto, os dois cabecearam, sem saber se deviam trocar um beijo, apertar as mãos ou não fazer nada disso. Ela começou:

— Obrigada por me teres avisado. Cheguei há pouco. Como é que ela está?

— O Bartolomeu passou a noite em casa dela — respondeu Fernão, como se a informação os pudesse tranquilizar a ambos. — Ele sabe o que fazer.

Era a primeira vez que falavam sem nenhuma ponta de hostilidade. Brísida identificou Carola ao longe, por entre uma multidão. Marcello, de fato preto, sentado na primeira fila, era a única pessoa que conhecia.

— Está aqui imensa gente. Família?

— Acho sobretudo amigos, vizinhos. Aqueles são os pais do Bartolomeu.

Ao olhar para o fundo, reconheceu Elda, escondida a um canto, e fez-lhe um sinal. A colega saiu da sombra, aproximou-se deles. Vinha tão pálida, que parecia anémica. Sem o prever, Brísida deu-lhe um abraço apertado. Sabia que dali a pouco teria de repetir o mesmo gesto com Carola, e sentia-se muito menos capaz.

— Lembram-se da festa de anos lá em casa delas? — retomou Brísida.

— Claro. A velhota era cinco estrelas — confirmou Fernão.

Elda não tinha forças para abrir a boca. Sentia-se esmagada pela situação. Naquela manhã, endereçara a Carola uma palavra dita a medo, que a colega agradecera de forma distante. Queria desaparecer, e ao mesmo tempo estar presente.

Tiago juntou-se ao grupo. Passara as últimas horas junto ao caixão.

— Não sei o que hei-de fazer — confessou ele. Partilhara os últimos dias com Carola, mas agora era como se não tivessem intimidade suficiente. E a ansiedade que sentia nas últimas horas não o fizera pregar olho. — Nem conhecia a senhora…

Fernão contraiu as maxilas. De quem era a culpa, senão do próprio? Tiago recusara todos os convites.

Então, um eco fê-los a todos girar a cabeça. Bartolomeu corria pelo lajeado que conduzia à capela, afogueado. Mal abrandou o passo para os cumprimentar.

O rapaz entrou no recinto e, sem tardar, dirigiu-se a Carola. Fê-la sentar-se, feliz por poder dar-lhe ao menos uma boa notícia:

— O teu irmão. O Óscar voltou.

 

*

 

Marcello conduziu as últimas pessoas à porta da capela, como se tivesse assumido o papel de tutor de toda aquela assistência composta sobretudo por pessoas na terceira idade. Fora incansável, não dormira mais do que duas horas na noite anterior. Carola virou-se para Bartolomeu, que praticamente não a deixara sozinha, e disse-lhe:

— Vocês têm de ir dormir um pouco, Bartolomeu. Ele já aí vem.

Óscar aguardava que a capela se esvaziasse. A presença de um noctívago ainda dava azo a receios. E eram muitos os rostos do passado, amigos da avó que o conheciam e o censuravam pela sua partida. Vivia há tanto tempo longe da cidade, que decerto não teria ânimo para contactar com ninguém além da irmã.

— Está bem. — Bartolomeu deu um beijo à amiga e frisou: — Mas amanhã de manhã cedo estou aqui. Não te livras de mim, Cenoura.

Ficou uns instantes sozinha, à espera que a porta se reabrisse. Não via o irmão havia quase dois anos, e a despedida não fora amigável. Na altura, ela entendia a adopção do estilo de vida dos noctívagos como uma regressão. Toda a vida a avó repetira: não desertar a cidade. O retorno a um estado selvagem parecia ditado pela incapacidade para lidar com as novas condições de vida. Agora, quase seis meses depois de ter começado a trabalhar no projecto, conseguia compreender melhor Óscar.

O irmão apresentava traços mais maduros, o cabelo ruivo ondulado caía-lhe pelos ombros, e deixara crescer a barba fulva, mas eram os mesmos olhos. Carola avaliou o rosto sereno, sem nenhuma defesa. A boca já não tinha aquele vinco de desafio permanente. Era a primeira vez que o via assim. Também ele a fitou por uns segundos, provavelmente a notar as diferenças que tantos meses podem comportar. Por fim, dirigiu-se, hesitante, à irmã:

— Carola.

— Óscar. Óscar… Óscar!

Perdida num abraço, Carola repetia aquele último nome. O irmão nunca tivera facilidade em falar com ela. Dele recordava apenas palavras cortadas, mesmo azedas. Mas não sentia agora nenhuma animosidade.

Como mudara! Apertou-lhe as mãos calejadas. Meses de trabalho, a viver algures na noite. Tinha de estar diferente. Óscar, por sua vez, passou-lhe a mão pela cabeça, como que a medir os centímetros a mais. Também ela crescera.

— Deixaram-te entrar na cidade, sem problemas?

Óscar fez que sim com a cabeça, mas Carola insistiu na resposta. Ele revelou:

— Fiquei detido, só uma noite. Perguntas.

— Contaram-te como aconteceu?

Sim, estava ao corrente. Ela conduziu-o para diante da tumba. Passou as mãos pela tampa do caixão, como que a indicar-lhe que podia abrir-se. A ideia assustou-o, ele deu um passo atrás. Tanto tempo longe… E se se esquecera do rosto da avó?

— Não tens de ver — disse Carola, enquanto lhe pegava no braço e o conduzia para um banco. — E ainda há tempo.

Sentaram-se um ao lado do outro. Óscar deixara um amigo lá fora à espera, havia um acampamento de noctívagos em Palmela. Mas queria deter-se na cidade o pouco tempo que lhe era permitido por ocasião do luto.

— Posso ficar lá em casa esta noite?

— Isso é pergunta que se faça? Claro que ficas lá em casa. É a tua casa.

— Quando me fui embora, sabes, não foi em bons termos. Com a avó.

— Eu sei. Ela contou-me. Contou muitas coisas.

Óscar olhou a irmã nos olhos e deixaram-se ficar um momento assim, a entenderem-se sem palavras. Na cabeça dele, a palavra família pertencia aos tempos em que o pai era vivo. Depois daquela morte, rejeitara os cuidados da avó, desentendera-se com a irmã, fechara-se numa bolha. Na altura, Carola tinha Mónica, as gémeas protegiam-se uma à outra.

— Todos estes meses… deves ter sentido que te abandonei — arriscou ele.

Carola fez um trejeito, como se atirasse isso para trás das costas. Mas dava para ver que o irmão tinha mais alguma coisa para contar.

— Nos últimos tempos — começou ele —, voltei a contactar a avó. Por telefone.

— Ah? Mas ela não me disse nada…

— Pedi-lhe para não te dizer. — Óscar não se defendeu, não deu justificações. Simplesmente não quisera apressar as coisas. — Falei com ela. A última vez foi no domingo passado. Dois dias antes de…

— O que é que ela te disse?

O irmão reteve as palavras. Traía a confiança de Dara. Mas revelou:

— Parecia inquieta, com medo. Foi uma impressão. Mas pediu para eu voltar.

— Então, é por isso que estás aqui… Mas, quando chegaste, ainda não sabias?

O irmão abanou a cabeça. Carola podia apenas imaginar quão chocante teria sido para ele a descoberta de que a avó falecera. Passou-lhe a mão pela barba agreste. Mas insistiu, precisava de saber:

— Diz-me só. Quando vocês falaram, que mais te contou ela?

— Falou de ti, do trabalho. O teu tutor… Marcello? Disse que não confiava nele.

 

4

Marcello caminha com um vulto à noiteOs coveiros escavavam em plena noite, à luz dos archotes que as pessoas presentes empunhavam. Marcello entregou o seu a Bartolomeu, pediu licença para passar. A tarefa ainda ia demorar e sentia a necessidade de se ausentar um pouco.

A comitiva que partira para o cemitério era menor do que o esperado: não havia lugares suficientes na camioneta que a câmara disponibilizara. Ele deslocara-se na carrinha da Bóreas, com os impulsores. Era uma viagem que despertava recordações em todos — menos em Tiago.

O tutor percorria sem rumo uma ala do cemitério quando se deparou justamente com o rapaz, encostado a uma lápide, de cabeça reclinada e olhos fechados. A princípio, chocou-o tal irreverência para com sepultura alheia. Mas, ao aproximar-se devagar, compreendeu que o rapaz adormecera naquela posição. Tocado pela cena, não ousou despertá-lo. Em vez disso, sentou-se ao seu lado na campa. Pobre Tiago, parecia esgotado da espera, havia semanas que um impasse maior o consumia sem lhe dar nada em troca. E, mais uma vez, a resolução teria de ser adiada. Marcello não contactara ninguém em Copenhaga; impossível naquelas circunstâncias.

Os dias da semana terrível tinham também dado conta dele. Marcello mal repousara. A crise passaria, todas as crises acabam por passar. Mas o efeito de tantas emoções vivas ainda agia sobre ele. Fechou os olhos também ele por um minuto. Sentia-se extenuado, e que bom seria poder dormir.

Mas não podia: abriu os olhos, pronto a voltar para junto da assistência. Que fazer quanto a Tiago? Acordá-lo ou deixá-lo descansar?

— Dá-lhe mais uns minutos.

Primeiro, quis descartar aquele conselho, a voz que o pronunciara, como se nada tivesse acontecido. Focou-se na questão secundária: deveria deixar Tiago dormir um pouco mais, ou não? Mas sabia que não estava sozinho, ouvia o som da respiração nas suas costas, atrás da laje tumular. Outra vez as alucinações. Desde que Bartolomeu fora morar para sua casa, estivera a salvo delas. Chegara a haver um momento, quando Tiago se conseguira ligar e o fantasma de Flávio deixara de comparecer nas ligações, em que quase as desejara. E agora, meses depois, exactamente ali, voltava a ser visitado.

Marcello sorriu antes de girar a cabeça:

— Precisa que te conto as novidades?

— Não te preocupes. Estou sempre a par.

Flávio deu a volta ao túmulo, foi sentar-se aos pés de Tiago: conservava aquela agilidade felina. Trazia um blusão de cabedal preto, adequado ao local, e um sorriso descontraído, como se não tivesse passado um dia desde que tinham estado juntos pela última vez. Com o queixo fendido, apontou para a laje à qual Tiago se tinha encostado:

— Já viste o túmulo que ele escolheu?

A pedra não tinha fotografia, e o nome mal se lia na escuridão, mas Marcello passou os dedos pelas letras incisas. Era o nome dele, Hirpo.

— Que achas, foi um acaso? — perguntou, com sarcasmo.

— Não tenhas mal com Tiago, ele fez o que pôde — indulgenciou-o Marcello. — A culpa não foi dele.

— Pois não — Flávio puxou o fecho do blusão, como se um fantasma pudesse sentir frio. E concluiu, com absoluta indiferença: — A culpa foi tua.

— Não era possível fazer outro, sabes bem. Tem de haver regras. O que tu mesmo disseste sempre.

— A regra era simples: eu e eles, os outros cinco. O Tiago não fazia parte dessa equação, era só um suporte. Que não funcionou. A partir do momento em que a situação não se resolvia, sabias o que tinha de ser feito: usar o trunfo.

O trunfo. Era uma tecla batida vezes sem conta nos primeiros meses, nos encontros tidos no Rest.2. Marcello estava cansado, não queria voltar a entrar naquela discussão. Tiago continuava a dormir um sono profundo, ao seu lado, desprotegido.

— Se fazia isso, era fatal para ele.

— Ouve, eu não tenho nada contra o rapaz, mas não podemos esquecer o que vem em primeiro lugar. — Flávio falava devagar, com a mão espalmada na própria laje gelada. Não, ele não podia sentir frio nenhum. — Parece-me que te afeiçoaste demasiado a eles. Isso não é bom.

 

*

 

Os archotes que luziam ao longe não alumiavam o caminho: afundar-se-ia no primeiro buraco que encontrasse. No entanto, cedera à vontade de marchar ao lado daquele guia improvável, cujo som de passos nem se fazia ouvir. Não poderia contar com alertas da parte dele.

Flávio tinha quase a sua altura. Marcello espreitava-lhe o formato do rosto, como se o pudesse ter esquecido naqueles últimos meses, enquanto ele caminhava sempre com o olhar em frente.

— Mas … — e Marcello aludia, claro, ao Rest.2 — tens coscienza?

— Consciência — e Flávio escandiu as sílabas, com paciência. A pergunta não lhe agradava. — Não estou confortável, se é isso que queres saber. O outro ocupa tudo. Ouve, estou aqui, não estou? Ainda não desapareci.

Marcello demorou a encontrar palavras para exprimir o que queria:

— Dias mesmo foram difíceis quando Tiago se ligou. Não sabia se tu ainda estavas… Tive de usar Curriculum para ter certeza. Mas isso veio com problemas.

— Nem fazes bem ideia…

Pelo chão, ouvia-se um restolhar enquanto caminhavam. Roedores, répteis? Marcello assegurou:

— Vou tratar da transmigração. Estás tranquilo! Preciso de chamar um virgem da Danimarca, só isso.

— Um daqueles copinhos de leite? Obrigado, mas não faz o meu estilo.

— Achas que é altura de fazer o caprichoso? O tempo está a passar.

— Isso sei eu. Já vamos a entrar em Dezembro.

Marcello começava a ver as pedras em que pisava. Já se ouviam as pazadas de terra que iam sendo lançadas para fora da cova. Ao fundo, avistava-se, por entre os presentes, o corpo esguio de Fernão, de mão escondida no bolso.

— É quase um déjà vu — sugeriu Flávio. — Mas, para o meu enterro, havia menos gente, suponho.

— Dara Jurado era pessoa com muitos amigos.

— Alguns inimigos, também.

Marcello deixou passar aquele comentário. Ao longe, de mão dada e um pouco afastados da assistência, Carola e Óscar protegiam-se mutuamente. Enfiado no buraco ao qual deveria descer o caixão, o coveiro mais corpulento soltava um grunhido do esforço: por vezes, a terra funda ganhava raízes.

— Foi ele, não foi? — perguntou Flávio, como se pudesse reconhecer o vulto. — O mesmo que abriu a minha cova.

— Aquele homem…? Talvez, sim — confirmou Marcello, embora não pudesse observar bem ao longe. Recordou o caixão encalhado na cova demasiado pequena, à chuva inclemente de Junho. Era como se o rapaz se comprazesse em recuar a essa primeira noite, notar todos os pormenores macabros. — Não quero insistir, mas se estás aqui, devíamos de decidir para a transmigração.

— Pois. Já disse, eu um virgem norueguês não me apetece.

— Deixa brincadeiras, por favor. Achas que tenho muitas escolhas?

— Muitas, não — conveio Flávio. — Mas há uma escolha. Abre lá os olhos.

 

*

 

O vento levantava-se, indispunha ainda mais aquele fim de Outono. Flávio adiantara-se uns metros, era já um membro distante da assembleia reunida em torno à cova. Gostava de bravatas daquelas, avançar por terreno minado sem medo de explodir.

Voltas para trás, pensou em chamá-lo Marcello, mas ia ser gozado se o fizesse. E não era «voltas», era «volta». Ou «volte»? Aqueles imperativos portugueses…

O rapaz rodopiava sem cautelas por entre a assistência, estava a poucos palmos de Brísida, de Bartolomeu, como um colega que regressa ao grupo. Tão rígido nos princípios, e tão inconsciente nos pormenores. Movia-se como um gato, seguro de si, com aquela ligeireza que é o milagre da juventude, desconhecido enquanto dura. Marcello invejou-lhe a passada de feltro, agora que a idade começava a pesar sobre ele. Mas Flávio passara a viver num mundo impossível, isento de gravidade; quem estava na primeira linha era ele, o homem a quem todos chamavam tutor. Cabia-lhe remediar a história, pôr cobro a obstáculos: o Conselho que preferia levar Bartolomeu para Faro, Brísida sob risco de desenvolver repulsa, a avó de Carola a ameaçar retirar a neta do projecto, aquela raiva incerta de Fernão sempre a rondar, o estado de debilidade de Tiago. E certamente outros factores que agiam na sombra, e poderiam vir a manifestar-se mais cedo ou mais tarde.

Flávio dera meia-volta, regressava com o ar satisfeito de quem sabe que pregou um susto. Marcello reprovou-o com o rosto, acatando o papel que lhe era destinado. Mas estava consciente de que toda a ânsia era injustificada: era próprio das alucinações serem vistas apenas pelo alucinador.

— Voltamos? — propôs o jovem, como quem sugere um regresso a casa, e não à campa.

Marcello acedeu. Depois da exposição à luz, custava reabituar os olhos à escuridão. Mas daí a nada Flávio fazia lume: trazia um isqueiro zippo no bolso.

— Não devias — censurou Marcello, enquanto ele soltava a primeira baforada.

— Eu sei. Queres?

Havia anos que Marcello não pegava num cigarro. Levou-o aos lábios, inalou o fumo com prazer. Era um veneno, aquilo.

— Ma… Marcello?

Ele virou a cabeça, identificou Elda, que se eclipsava na reentrância de um jazigo. Apavorado, Marcello tentou engrossar o corpo, para esconder o comparsa. Mas a rapariga pousara os olhos na mão dele:

— Não sabia que fumava…

— E não fumo. Habitude péssima! Não deves começar.

Elda teve quase vontade de rir: estava longe das suas intenções. O tutor apagou o cigarro na sola do sapato, num atabalhoamento, guardou a beata na algibeira. Sabia que era proibido fumar ali, por causa dos fogos. Discretamente, olhou à sua volta. Nenhum sinal de Flávio.

— Estou só dar um passeio. Já muita gente ali.

Ela respondeu com um retesar de lábios. Não precisava explicar.

— Tiveste férias boas? Enfim, não... — e Marcello teve vontade de levar as mãos à cabeça. Saíam-lhe sempre aquelas frases desastradas.

— Deu para descansar, não é? — salvou-o ela, também embaraçada.

O tutor fez um sorriso triste. Queria acrescentar mais alguma coisa, imaginava que estar ali naquela noite não fosse fácil para ela. Mas faltaram-lhe as palavras.

— Tenho de ir. O Tiago. Dormir ao frio não é bom, não é? Quer dizer, ao menos, ponho um casaco para cima. — Irritou-se consigo mesmo: que parasse de falar. Lançou um movimento de dedos a Elda e afastou-se depressa, com as faces a arder.

Ao fim de tanto tempo, ainda continuava a sentir-se um adulto incompetente.

           

*

 

Fizera o mesmo percurso de pouco antes, sempre à espera que Flávio surgisse detrás de uma árvore, ou o aguardasse sentado no muro de pedra, mas a aparição não veio. Marcello reencontrou a campa onde Tiago continuava a dormir, na mesma posição, como se não tivesse passado um minuto sequer. Sentou-se ao lado do rapaz, de mansinho, disposto a acordá-lo com delicadeza.

E já estendia o braço na sua direcção quando foi interrompido.

— Quando se olha para ela, ninguém imagina.

Apanhou um susto com o regresso inesperado.

— Mesmo gostava que avisavas antes de chegar assim!

Flávio pediu desculpa, com um sorriso sardónico. Via-se que adorava aquilo. Marcello deixou cair o braço, verificou que Tiago não acordara. Depois sussurrou:

— Ela? Estás a falar de Elda? — O companheiro sentou-se à sua frente, alçou as sobrancelhas: não era preciso mostrar o óbvio. — Ninguém imagina o quê? O trunfo?

— Isso. Que o projecto repousa nos ombros dela. Nem tem ombros, já reparaste?

— E tu dizias que eu já deveria… teria devido… Como fazia a usar o trunfo?

— Não te preocupes. Quando chegar o momento, se algum dia chegar… Vais ver, ela vai ser capaz.

Marcello encostou a cabeça, olhou para as estrelas. Se chegasse o momento. Estaria Elda de facto pronta caso fosse chamada a agir? Felizmente, a transmigração deveria prevenir o pior cenário, e pôr termo àquela sucessão de problemas. A partir de segunda-feira já poderia voltar a comunicar com Flávio no Rest.2, depois de semanas de apagão. Sempre o mesmo ponto de encontro, a praia de Odeceixe.

O cansaço voltava a amolecê-lo, piscava os olhos para a alucinação.

— Não tornas a desaparecer, pois não?

— Shhh… Descansa, não vou para lado nenhum. Podes estar sossegado… Afinal, sou teu sobrinho, não é?

Marcello fechou as pálpebras, com um sorriso nos lábios.

Estremeceu quando a mão gélida do rapaz lhe tocou no braço, e por momentos confundiu os rostos, embora Tiago não fosse nada parecido com Flávio.

— Já acordaste? — Era uma pergunta mesmo à Marcello, e, de facto, Tiago nem respondeu. — Bem. Vamos?

Nenhum sinal de Flávio, e os músculos acusavam um mau jeito. Estivera a dormir todo aquele tempo? Um simples sonho, então, nenhuma alucinação. Aproveitou a mão esticada de Tiago para se levantar, e demorou uns segundos a espreguiçar-se, a limpar a terra do fato escuro. O rapaz afastava-se, numa frustração calada, chutava pedras para abrir o caminho. E Marcello já ia no seu encalço quando notou um objecto reluzir junto à campa. Ajoelhou-se, pegou no zippo sem saber que sentido lhe dar. Ao rodar o polegar pela roldana, o fogo alumiou a pedra tumular. Lá estava o nome: Flávio Hirpo.

 

5

Quando Bartolomeu viu que o tutor regressava na direcção deles com Tiago, olhou para todos os lados, à procura de uma escapatória. Avisou Brísida:

— Vou ver se encontro os meus pais.

Ela ficara com a impressão que os senhores não tinham obtido lugar na camioneta, mas o rapaz já desaparecera. Tiago mantivera-se à distância, de mãos nos bolsos, o cabelo em desalinho. Marcello, entretanto, aproximara-se dela com uma mensagem precisa:

— Acho que tenho solução para o nosso problema. Mas preciso que vais falar com Carola. Qualquer coisa. Tira-a dali agora — e apontava na direcção dos gémeos.

Brísida executou a ordem com um talento de que Marcello não duvidara, e ele aproveitou logo a oportunidade. Em poucos minutos, pusera-se ao lado do inalcançável irmão foragido, a quem perguntou, sem circunlóquios:

— Quantos dias tem direito na cidade?

— Quem? — Para o rapaz, aquela linguagem era novidade.

— Tu! Quantos dias deixam ficar em Lisboa?

— Dois dias.

— Parece-te bom? — Óscar não compreendia aquela conversa, e procurou Carola com o olhar. Marcello insistiu: — Não é suficiente. Tua irmã precisa de ti. Gostavas poder ficar mais tempo?

Ele demorou a responder.

— Não decido eu as regras impostas aos noctívagos.

— Mas conheces as regras. Sabes que, com trabalho, podem voltar para a cidade. Dize: tu nunca te ligaste ao Rest, não é? Talvez tenho uma solução para ti.

Óscar olhou para ele com ar aparvalhado. Aquele homem estava mesmo a propor-lhe um trabalho na Bóreas?

De longe, resguardada no jazigo, Elda seguia aquelas movimentações, enquanto aguardava a conclusão do trabalho. A cova estava quase pronta, faltariam minutos para o caixão poder descer à terra.

Temia não ser capaz de recuperar a expressão apática que lhe servira de escudo ao longo das últimas horas. Os reflexos dos archotes tremeluziam nas lajes baças das sepulturas, criavam efeitos dourados que mais ninguém apreciava. Os habitantes daquele recinto estavam expostos ao levantar e ao pôr-do-sol sem nunca o poderem contemplar. No fundo, tal como nós, pensou, e quase se comoveu.

Só que uma voz cortante, a poucos metros, quebrou a emoção do momento.

— Quem ela é.

Fernão riscava um fósforo, e Elda viu-lhe o rosto grave, no intervalo de tempo em que a chama ardeu. Trazia um cigarro na boca, e estava também encostado a uma parede, como se há já bastante tempo se encontrasse ali. De esguelha, como ela.

— Estava à tua procura — confessou ele, com desprendimento, enquanto olhava para o céu. E depois, numa voz diferente, mais lenta, enquanto rodava os calcanhares: — Mas tu andas sempre a ver se escapas, não é?

Ela não disse nada, mas pressentiu perigo, e girou sobre si mesma como se não achasse o caminho de regresso para junto dos outros.

Foi ele quem avançou na direcção dela, devagarinho, dando-lhe todo o tempo para fugir. E ela imóvel.

Chegou junto dela, atirou o cigarro em fogo ao chão, esmagou-o com a bota. E então, num passe completamente inesperado, deslizou com a mão esquerda por aquele rosto miúdo, numa carícia decidida e brusca.

Elda viu-lhe as pupilas luzirem na escuridão, numa espera atenta e feroz, de quem sente a presa encurralada. Sentia os lábios tremerem, e não era capaz de reagir, de dizer nada. Fernão entendeu o silêncio como uma permissão. Colou o tronco ao dela, ventre contra ventre, amachucou-lhe o ombro, torceu-lhe o queixo com força.

— Sabes que comigo não tens de fazer de conta…

— Fernão… — ainda implorou ela, numa lamúria.

— Somos feitos de outra massa, não é, piolho?

E, sufocando-a com o cheiro a tabaco, invadiu-lhe a boca com a língua, percorreu-lhe o corpo com o braço são. Um minuto, dois, talvez. Depois, soltou-a, deixou-a ganhar fôlego, como se a agraciasse na iminência de um sacrifício. Elda sentiu-se morrer, e regressar à vida.

A voz distante de Tiago chamava os nomes deles. E Fernão indicou:

— Vão dar pela nossa falta. É melhor voltarmos.