08

UMA OPORTUNIDADE

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Elda

Bartolomeu

Carola

Fernão

Brísida

Tiago

Marcello

1

Tiago e Fernão com o móduloCada consulta médica demorava pelo menos vinte minutos. A Bóreas era conhecida pela qualidade dos cuidados que garantia ao seu pessoal e, no caso dos impulsores, as atenções prestadas redobravam. Regularmente, Marcello insistia numa ronda, pelo que todos os impulsores reconheciam o médico de outras visitas. Todos, menos Tiago.

Era o último do banco de espera, o sexto impulsor. Quando Brísida saísse, e a porta de vidro produzisse o seu inevitável rangido, receberia sinal para entrar.

Observou os colegas, sentados a seu lado, e revisitou as suas notas mentais. Fernão, Setúbal — fixe, namorado de Lisa, dá-se bem com todos menos com: Brísida, Porto — antipática, sabichona, de nariz empinado, não se dá com ninguém excepto: Bartolomeu, Lisboa — fixe, vive com o tutor, velho amigo de: Carola, Lisboa — fixe, um bocado desconfiada, que atura: Elda, Coimbra — «nada a declarar».

A sua fé no retrato que Fernão o ajudara a compor vacilou ao cruzar o olhar com Elda. Fora ela, na ligação de interacção precedente, a enunciar-lhe as coordenadas de base daquele mundo, e o momento fazia agora parte das suas primeiras recordações.

Tiago levava três dias no Instituto, assistido por uma enfermeira. Consumira o tempo em busca de dados que lhe conferissem uma identidade. Todavia, dos esforços para se recordar do passado e das breves conversas que, naquela manhã, entretivera com os colegas, chegara apenas a: Tiago, Lisboa, Copenhaga, Milão, Rio de Janeiro. A sua biografia era uma colecção instável de lugares, de que só guardava impressões vagas.

— Pronto? — perguntou Marcello. A primeira palavra que lhe dirigia em horas.

— Sim, acho — titubeou o rapaz. Não percebia ainda como lidar com aquele homem, que, em vez de lhe transmitir confiança, se lhe dirigia com mal disfarçada animosidade, como se o responsabilizasse por não se conseguir recordar de nada.

A porta rangeu pouco depois, e Marcello levantou-se para o acompanhar ao consultório. Os impulsores ficaram sozinhos na sala de espera, a remoer aquele azar do colega. Bartolomeu confirmou que agora o tutor regressava tarde a casa, preocupado, fechava-se no quarto. Não era difícil associar esse facto à amnésia de Tiago, sequela inesperada da primeira ligação bem-sucedida. O que teria a dizer sobre isso Morgana Derves, a avó do rapaz? Impossível que o Conselho da Nação não estivesse a par.

— Falei com o meu pai ontem — anunciou Bartolomeu. — O caso do Tiago é raro, mas não é único.

— Claro que pode acontecer — corroborou Brísida. — É um dos riscos da primeira ligação. De certeza que vos falaram disso na preparação do liceu.

Ninguém se manifestou. Lembravam-se lá da preparação… Passaram-se mais alguns minutos de um silêncio amargurado.

— Ele… não se lembra mesmo de nada, nada? — Elda repisava a questão.

— Nada. Como se tivesse nascido há dias, no Rest.2 — respondeu Carola.

— Ainda bem que estavas lá tu… — Fernão endereçou um sorriso maldoso a Elda. — Sempre pôde contar contigo para se orientar…

— Não sejas parvo — repreendeu-o Bartolomeu. — Ainda bem mesmo.

— Olha lá, Fernão, tu falaste um bocado com ele na festa, antes da ligação — lembrou-se Carola. — Ele na altura não te contou nada?

— Umas coisas, assim pela rama. Vive sozinho, não sei onde nem como. Os pais estão em Copenhaga, com a irmã. Da tal avó, nem piou. Alguém sabe mais alguma coisa?

Passaram um tempo circunspectos, à procura de informações dentro de si. Tiago era um deles, mas nunca fora bem um deles.

— Será possível que convivemos este tempo todo e não sabemos nada? — A situação do rapaz tocava sinceramente Brísida. — Não é normal…

— Ele é que repelia toda a gente, queria sempre que o deixassem em paz — sustentou Carola. — Às vezes, era mesmo bruto.

— Mas ele… — Bartolomeu tomou a palavra, sem saber muito bem o que dizer. — Eu também conversei um bocado com ele, na festa. Não falou muito, mas… parecia diferente! Mais extrovertido, engraçado…

— E amável — acrescentou Elda —, quero dizer, na ligação. Foi delicado.

— Um cavalheiro, querem ver? — Fernão voltava a ser mordaz. — Vá lá, não se embalem. Divertido, OK; esperto, o que quiserem. Mas… delicado?, amável? Estamos a falar da mesma pessoa?

Comigo ele foi assim — ousou dizer Elda, já irritada.

— Pois comigo não. Se queres que te diga, de início até se comportou um bocado como um sacana…

Nesse momento, a porta de vidro abriu-se de novo. Tiago saiu, sozinho. Sentado lá dentro, junto ao médico, Marcello fez-lhe sinal para a fechar atrás de si.

— Então? — perguntou Brísida. — O que é que te disseram?

— Nada a fazer — resignou-se Tiago. — A memória há-de voltar por si, de um momento para o outro. Pode ser amanhã. Mas também pode ser daqui a meses.

 

*

 

— Não precisava de me escoltar — afirmou Tiago, depois de Marcello ter empurrado a porta do seu apartamento. — Com a morada conseguia vir cá ter.

Começava a ficar farto do tratamento frio que o tutor lhe reservava.

— Podes sentir um bocado desorientado — avisou Marcello. — Não lembrar o que são objectos de todos dias. Fazer-te mal. O médico explicou.

— Só não me lembro das coisas pessoais — replicou o rapaz. — Sei o que é uma faca, um garfo, uma colher. Até lhe posso debitar a lista dos reis portugueses, se quiser.

— Obrigado, não vale pena. Dormiu bem?

— Quem?

— Tu! Dor… dormiste bem? Ontem à noite, lá no Instituto?

— Nem por isso. — Tiago olhou para o tutor com desconfiança. A pergunta era um verdadeiro sinal de interesse? Por fim? — Não consigo dormir. Só pesadelos, com pessoas que não conheço. Pelo menos, acho que não conheço.

— Talvez aqui… — Marcello abarcava com os braços o espaço à sua volta.

Tiago olhou em seu redor: um espaço imenso, mobília de bom gosto, quadros originais. A sala era apenas uma das quatro divisões do apartamento renovado, na rua D. Estefânia. Não sabia como podia manter aquele nível de vida.

— Provavelmente a casa é dos teus pais, não é? — sugeriu Marcello, adivinhando o que passava pela cabeça do rapaz.

— Pois, os meus pais. Continua a achar que não se devia informá-los?

— Vocês não vão muito de acordo, Tiago. Eles não ligam, tu não ligas.

— Não percebo. Não querem saber? Mas porquê?

— Histórias antigas, supongo. Não sei. — A expressão do tutor era reveladora: os pais não estavam interessados em ouvir notícias dele.

— E a minha irmã? Também faz parte desse pacto de não-agressão?

— Julgo que sim. — Marcello estava pouco à vontade. — A relação com tua familha era assim. Tu querias mesmo. Disseste uma vez, aqui, nesta sala, que preferias não voltar a falar com nenhum deles.

Tiago perscrutou aquelas quatro paredes, em busca de uma pista, sem saber como pesar os factos que lhe eram transmitidos. Marcello adoptou um tom mais optimista:

— Espera uns dias, a memória pode voltar. O médico diz que não há problema em ligar ao Rest.2, ajuda mesmo. Começas amanhã. Tentas lembrar-te lugares e pessoas… — E Marcello despachou um sorriso constringido. Estava pronto para se despedir.

Tiago ignorou o conselho:

— Há pouco disse que eu já lhe tinha falado dos meus pais aqui, nesta sala. Mas isso quer dizer que o Marcello já cá tinha vindo a casa?

— Eu… sim. Dois ou três vezes.

— Mas porquê? Não percebo. Não éramos amigos, pois não? — Nem era preciso responder, «amigos» era palavra arredada daquele entendimento. Ao menos, em relação ao projecto o tutor não podia dizer «não sei»: — E, se eu não me conseguia ligar ao módulo, o que é que ia fazer para o Instituto todos os dias?

Era aquilo. Pelo olhar de Marcello, Tiago tocava no ponto essencial, algo que paradoxalmente justificava tanto a irritação muda que o tutor lhe votava como o interesse pelo seu estado. Marcello perguntou:

— Não te lembra, mesmo, não é? Da tua função no projecto?

— Acha que estou a fingir? Qual função?

— É complicado. Não, ouve. Agora, descansas, tenta concentrar-te. Dás-me uns dias. Estou trabalhar, pode ser que a partir do Curriculum … Talvez resolvo já na próxima ligação de interacção.

— Em português, por favor. O que é isso do Curriculum?

— Nada, é só para activar uma variante de leitura, assim chega à memória. Confirmar que está lá, ainda. Olha, não precisas de perceber, seja como seja.

— Seja como for. Não preciso de perceber? A sério?

— Dás-me uns dias — repetiu Marcello. — Se não funciona, conto tudo. Garanto.

 

2

Os passos tinham-no levado a um daqueles bairros periféricos onde morava imensa gente mas não se via ninguém na rua. Passava da meia-noite, luzes esporádicas coloriam janelas de prédios atarracados, dois ou três andares que pareciam ter sofrido um efeito de compressão. A muralha ficava a dois passos, e Tiago já se deparara com a sua dose de becos sem saída. Não era a melhor parte da cidade para passear.

— Bem me parecia que eras tu! — uma voz quente, agradável.

Ele estacou, olhou a rapariga de alto a baixo.

— Eu conheço-te? Desculpa, estou a passar por uma fase…

— Sou tão estúpida — ela rolou os olhos, a reconhecer o erro idiota. — Claro que não te podes lembrar, o Fernão contou-me. Sou a namorada dele. O meu nome é Lisa.

— Ah. Eu sou o Tiago — ia para estender-lhe a mão, como quem diz «muito prazer», mas abortou o gesto. — Mas tu sabes. Pois.

— Ia a voltar para casa. Tu?

— Só uma volta. Não consigo dormir. Tipo, nunca. — O dia com dores de cabeça; à noite sentia-se podre mas não pregava os olhos. — Posso acompanhar-te, se quiseres.

— Claro. Conhecemo-nos na festa, antes de te ligares. Junto ao rio.

— Alguma revelação bombástica sobre mim?

— Desculpa… Gostava de poder ajudar.

— Sabes o que é mais estranho? Parece que isto não afectou só a minha identidade. Não me lembro nada desta cidade. Hoje para chegar ao Instituto tive de usar um mapa. E a muralha, a cobertura… soa tudo estranho. É como se eu não reconhecesse nada.

— Então, o mundo é uma novidade para ti?

— Não, isso é que é esquisito. Sei de cor os símbolos químicos, o nome dos planetas, o número de cantos d’Os Lusíadas. Mas quanto ao quotidiano… zero!

— A situação é mais grave do que eu pensava. Tu leste Os Lusíadas? A sério!? — Tiago sorriu. Ela perguntou: — E hoje, no Rest.2, chegaste a alguma conclusão?

— Não. É tudo um grande vazio. Vêm-me assim umas imagens. Não sei se é o Rio de Janeiro, não consigo identificar. E corri-os a todos. Aos meus colegas.

— Correste-os a todos? Ah, falaste com as projecções deles? E então?

— Nada, não falam. Ou melhor, só dizem o que eu quero ouvir.

Os colegas, os verdadeiros, tinham sido irrepreensíveis, sem excepção. E, apesar disso, nenhum tinha o mínimo dado sobre ele a acrescentar. Não recordavam um momento de abertura da sua parte, e evitavam pronunciar-se sobre a impressão que lhes transmitira ao longo daqueles primeiros meses de convívio. Tiago Derves não devia ser uma pessoa muito estimável.

— A partir daqui não se vê nada — avisou Lisa, à beira de uma ravina escura — Política da câmara: uma lâmpada estragada é uma lâmpada poupada. Pelo menos, nesta parte da cidade. Eu moro ali em baixo.

— OK. Vou andando. Gostei de te conhecer… outra vez.

— Idem. Havemos de nos encontrar. Torel, no fim-de-semana? Vá, boa noite.

Tiago acenou uma mão espalmada, afastou-se devagar. A conversa com Lisa pusera-o de bom humor. As estrelas eram coadas pela cobertura de vidro; mas o brilho existia. Olhou para o relógio: boas horas de se recolher, mesmo se não lhe apetecia.

Foi quando ouviu chamar o seu nome de novo.

— Lembrei-me de uma coisa — explicou Lisa, ofegante da corrida. — Na noite da festa, quando nos apresentámos, tu disseste-me que eras um «homem de palha».

— Homem de palha? O que é que isso quer dizer?

— Não sei, na altura também achei estranho. Mas foi a expressão que usaste.

 

*

 

Brísida levantou a cabeça da secretária e apanhou um susto. Ele ali estava, outra vez, sentado na cadeira de vime ao lado da janela, a olhar para o campo de centeio com os olhos esverdeados.

— O que é que queres? — perguntou ela.

Tiago virou o rosto impávido na sua direcção.

A projecção aparecia-lhe assim, de repente, nas suas ligações privadas, e não havia forma de o remover, como uma estátua de que não se gosta, plantada no meio do jardim. Se tinha uma mensagem para transmitir, que o fizesse. Mas ficava ali em silêncio, durante os minutos que lhe eram necessários, a olhar para a paisagem. Se ela baixava a cabeça, continuava a aperceber-se do contorno do corpo pelo canto do olho; só ao distrair-se é que ele desaparecia de vez. Era um enigma, uma culpa sem razão. Ou escapava-lhe alguma coisa?

— Não posso fazer nada — relembrou Brísida. E, como se não falasse apenas para um produto da sua mente, tentava incutir-lhe a razão: — Tenho pena, a sério que tenho. Mas não te serve de nada ficares aqui.

Tiago desviava de novo o rosto lá para fora.

Era um dia abafado, não soprava uma aragem. Poucas pessoas desejavam restaurar sensações daquelas no Rest.2, mas, estendido na praia ao sol, Bartolomeu gostava do calor que lhe secava o corpo em menos de um minuto. Entreabriu as pestanas cheias de sal e reabituou-se à luz, enquanto, com a orelha colada à areia, ouvia o som de pés a caminharem. Tiago sentou-se um pouco mais à frente, na toalha, a comer um gelado.

— Podias ter perguntado se eu queria… — queixou-se Bartolomeu.

— Estavas a nadar — disse o colega, entre duas dentadas: — Queres?

Recusou, e ele por ali ficou, de costas viradas, com a tatuagem do cavalo-marinho em evidência. Bartolomeu não compreendia a escolha daquela ligação: a baía de Cascais, com as casas, os barquinhos. E porque projectara Tiago ali? Bastava-lhe fechar os olhos e mudar o cenário, mas deixou-se ficar a torrar ao sol mais um pouco, apanhando no ar trechos de conversas alheias. Mesmo quando não olhava para ele, sentia aquela presença.

— E se fôssemos ao mergulho? — propôs então Tiago.

Era isso: ao contrário dos outros impulsores, aquele sabia nadar. Bartolomeu sorriu, levantou-se, correu em direcção ao mar.

Do castelo de Mogadouro não sobrava mais do que uma torre, restos de muralhas. Carola assobiou, e Tugúbio passou a correr. O seu Rest.2 era agora quase sempre assim, um espaço plácido, sem ânsias. Raramente invocava projecções dos colegas, repelia essas figuras destituídas de vontade própria, que identificava como impostores. Havia uma excepção, claro. A irmã, a seu lado, perguntou:

— Então, o maluco já se lembrou de alguma coisa?

Podia repetir mil vezes que o colega não era maluco, estava amnésico. Para Mónica, havia pouca diferença: se Tiago não se lembrava de quem era, e nada se sabia dele, ninguém podia garantir que fosse são de espírito. Uma lógica infalível, como a de outros tempos, que a fazia sorrir.

Uma súbita rajada de vento, daquelas que ali se podem revelar perigosas, quase o fez perder o equilíbrio. Do alto do promontório, Fernão calculou a queda. Deu dois passos para trás, na direcção de Lisa, que permanecia em pé, a olhar para ele expectante.

— Ainda acho que devias contar ao Tiago — disse ela, passado um pouco.

Fernão estalou a língua. Havia dias que a questão o angustiava.

— Tu nem sabes nada dessa história. Quer dizer, a Lisa não sabe nada. Tu… Se eu quiser fecho os olhos e… — Interrompeu-se, fechou os olhos, abriu-os, a projecção desaparecera. Resmungou para si mesmo: — E já está. Acabou-se.

Aquela não era mesmo Lisa, não era ninguém, só uma forma que tinha de dizer a si mesmo coisas desagradáveis, como aquele negócio em que Tiago fora intermediário e que o levara a poder ligar-se ao Rest.1 do módulo da dona Graça. Custava-lhe desenterrar a história. Revelar o que se passara poderia ajudar o colega com a sua situação?

Com Elda, Tiago ainda era um rapaz gentil, isso não mudara; e podia deixar operar a magia, passar-se-ia tudo da mesma maneira.

— Podes explicar-me mais? Somos seis? — recomeçava ele.

O mesmo diálogo, sem tirar nem pôr. Olhos nos olhos, quase dois amigos. Simplesmente, como uma canção ouvida muitas vezes, a interacção já não repercutia da mesma forma. Não era ele. Era uma reprodução, só outra das suas tentativas de reviver o passado. Os dias passavam depressa, pensou Elda, e as sensações reais não perduravam. Fechou os olhos, abriu os olhos. Estava outra vez no habitual fim da linha das suas ligações ao Rest.2: um corredor do seu liceu de Coimbra, que percorreu sozinha.

 

*

 

De certo modo, atravessar os dias era mais fácil, bastava-lhe seguir as indicações que todos pareciam dispostos a dar-lhe. As ligações no Instituto traziam-lhe algum conforto, sentia o corpo menos tenso. Quando voltava à realidade, de novo o enjoo. À noite, a casa vazia ecoava as perguntas que se fazia, e a essas horas sentia-se sempre estafado.

Embora pouco passasse das nove, Tiago já estava estendido na cama, mesmo se continuava sem conseguir adormecer. Ocupava o tempo a vasculhar estantes e gavetas, mas de pessoal encontrara pouco, apenas alguns desenhos que, compreendeu depressa, tinham sido feitos por ele próprio. Esboços dos módulos da sala de impulsão, uma cópia de um quadro abstracto que tinha na sala, retratos dos colegas a lápis. Desdobrou uma página A4, reconheceu o rosto de Bartolomeu, a traço escuro. Não estava mal.

Tinha jeito, percebeu ao deixar a mão criar uns quantos traços livremente. Mas não persistiu muito nessa via, que talvez lhe desse mais pistas do que supunha. Em vez disso, pegou no livro que encontrara na sua mesa de cabeceira, dias atrás. Na capa, uma sombra de rapaz aprisionava o título em italiano, Il giovane Törless. Provável herança dos anos de Milão, tanto mais que era edição muito manuseada. Retomou a leitura na página cujo canto dobrara na véspera. Não recordava o nome dos seus pais, mas era capaz de reconhecer aquelas palavras estrangeiras sem grandes hesitações.

Leu durante cerca de hora e meia, depois levantou-se e dirigiu-se descalço para a cozinha. Mas, nesse momento, um sinal sonoro ecoou no apartamento. Atrapalhado diante do aparelho que piscava na entrada, sem saber como proceder, carregou no botão de presença, e o sinal passou de vermelho a verde. Então, voltou ao quarto, calçou os chinelos e aguardou uns segundos, sem saber se alguém viria ter com ele. Como nada acontecia, abriu a porta e desceu ao piso térreo, e foi apenas quando olhou para a cabina que compreendeu. Era uma ligação telefónica; claro que os residentes daquele prédio tinham meios para pagar uma extensão da linha. Pegou no auscultador, anunciou-se.

— Tiago! Demoraste tanto tempo… O que é que estavas a fazer?

— Teresa…? — Uma voz feminina, jovem, familiar. Só podia ser a irmã.

— Estás bem? Esqueceste-te de que eu ia telefonar hoje?

— Ouve, esqueci-me de tudo. Um caso de amnésia, depois de uma ligação. Sabes que eu trabalho no…

— É claro que sei onde trabalhas. Não estou a perceber. Amnésia como?

— Amnésia total. Não me lembro de nada, não sei quem sou.

— Nem de mim? Não te lembras de mim?

— Não… nada. Vi umas fotografias, até te tentei projectar no Rest.2, mas… sem resultados. Não sei se sabes o que é o Rest.2. Precisava tanto de te ver!

— Eu estou em Copenhaga, Tiago! Trabalho para a Bóreas. Não te lembras mesmo de nada. Mas espera lá, então tu conseguiste ligar-te?

— Foi essa a causa! E agora não sei. Disseram-me que tu e eu não nos damos…

— Nós… damo-nos — o tom de voz não permitia a Tiago convencer-se disso ou do seu contrário. — É com os pais que tens problemas. E com a avó, que não te quer ver nem pintado. Havia tanto para explicar… Ao telefone fica caro. Sempre foi assim. Houve sempre esta distância enorme que se impôs… que tu impuseste. Eles deixam-te fazer o que queres, financiam-te tudo…

— Mas então… é culpa minha? — Do outro lado da linha, a irmã manteve-se em silêncio. Tiago sentiu-se maldisposto, mas controlou-se: — Não há forma de falarmos melhor, a sério? Nem consigo associar a tua voz a uma cara.

— Talvez haja uma maneira… mas para isso preciso de te explicar duas ou três coisas. Tens com que anotar?

 

3

Tiago retirou-se do módulo, devagar, sob o olhar expectante de Fernão. Em pé, de copo de água na mão, a dona da casa tentava compreender aquela excursão nocturna:

— Mas ó Fernão, o rapaz não é teu colega lá no Instituto? Porque é que tem de se vir ligar aqui a esta hora?

— É, dona Graça — respondeu Fernão à vizinha. — É que o Tiago ainda está só no começo.

A dona Graça fez uma expressão de entendimento perante a justificação, que de facto pouco adiantava, e deixou os dois amigos à vontade.

Sentindo-se novamente debilitado, Tiago bebeu e esperou alguns instantes para falar, de olhos postos naquele módulo velho. Os quinze minutos que passara ali dentro eram suficientes para determinar uma imagem bastante completa de si.

— Como é que correu? — perguntou Fernão. — Conseguiste falar com ela?

Tiago acenou a cabeça, mas a facilidade com que o colega agora abordava aquele assunto aborrecia-o. Confiara em Fernão e ele, afinal, omitira-lhe elementos cruciais.

— Consegui — confirmou, por fim. — Códigos e mais códigos, mas lá consegui.

— Uau! A tua irmã é mesmo boa. No Rest.1?

— Onde é que querias que fosse? Não foi o que te arranjei? — Tiago fez um gesto de repugnância. Descobrira naquela noite que fora ele a organizar a transacção entre a irmã e o colega. O que é que isso fazia dele? Havia um nome para esse tipo de tráfico?

— E o que é que ela te disse? Isto serviu-te para alguma coisa?

— Mais ou menos.

Reconhecera a irmã de imediato: uma rapariga com algumas parecenças consigo, cabelo cor de mel, olhos mais decididos, apenas um ano mais velha. Teresa dera-lhe um abraço apertado e demorara-se a estudar-lhe o rosto: havia vários anos que não estavam em presença um do outro. «Da última vez que te vi eras um miúdo», declarara, como se ela já então fosse uma adulta. Encontraram-se em terreno neutro, numa divisão que parecia familiar a Tiago e que a irmã indicou ser o quarto de infância deles em Copenhaga. Tinham ido viver para aquela cidade, ainda muito crianças, e crescido juntos ali.

Os problemas de Tiago com os pais vinham já dessa altura: incompreensões, disputas, afrontas. Aos doze anos ficara decidido que ele acompanharia o pai para Milão, para onde este fora trabalhar na Bóreas. A mãe permanecera na sede da empresa, em Copenhaga, com Teresa. Desde muito nova, a irmã revelara um dom para compreender o funcionamento do mundo virtual; ao entrar na adolescência, era já o mais firme talento da sua geração, e desde então aperfeiçoara as suas capacidades nesse domínio. Entretanto, em Milão, ao fim de alguns meses, Tiago chegara a desacordo com o pai, após problemas graves, mas pouco claros, no liceu; fora confiado a Morgana, a avó, em Lisboa; mas, por razões que Teresa também nunca conseguira ver esclarecidas, o período na capital durara pouco. Fora-lhe financiada nova viagem, desta vez em direcção ao Rio de Janeiro, onde o acolheriam uns primos, na esperança de que a estada num país distante servisse «para o acalmar», nas palavras da avó. Datava dessa altura o rompimento das relações tanto com o pai como com a mãe. O regresso a Lisboa, poucos meses antes, coincidira com o recrutamento para participar no projecto; mas a avó recusara-se a acolhê-lo de novo, e fora julgado preferível que ele ocupasse o antigo apartamento dos pais, à Estefânia, sendo o seu sustento garantido pelos membros da família com quem cortara os laços. Desde então, Teresa esforçara-se por retomar o contacto com o irmão, por telefone.

— Bem, que biografia — comentou Fernão. — E os teus estudos, nisso tudo?

— No mínimo, intermitentes, diria — concedeu Tiago, com um sorriso frio. Só desejava acabar com aquele assunto. — Bom, acho que já tive revelações de sobra.

— Não queres ficar mais um bocado? A Lisa esta noite trabalha…

Tiago disse que não, pegou no casaco, foi despedir-se da dona Graça. Depois, preparou-se para transmitir a Fernão a mensagem de Teresa. Estava desagradado com aquela história, que não compreendia.

— Parece que não te tens ligado a este módulo.

— Eu sei, nunca mais pensei nisso.

— Havia um acordo… Vê lá isso.

E Tiago desapareceu no corredor sombrio, deixando Fernão incomodado com aquilo. Não era justo que agora a responsabilidade lhe incumbisse, Tiago lucrara a sua parte no negócio e na altura dera sinais de saber bem em que se metia. A dona Graça voltava à sala, Fernão olhou para o módulo, depois para o relógio de parede. Havia semanas que não usava aquela geringonça.

— Desculpe lá, dona Graça, se eu me ligar dez minutinhos, dou transtorno?

 

*

 

Tiago aguardava havia já um bocado ao lado da porta. Não fora fácil chegar ali, apesar de a sede do Conselho da Nação ficar a dois passos do Instituto. Não por acaso, ocupava os espaços do antigo estabelecimento prisional da cidade. Era extraordinário que um rapaz da sua idade aparecesse a pedir uma audiência, sem ter obedecido aos trâmites habituais. Rapazes da sua idade, aliás, àquela hora estavam a trabalhar. Para convencer os guardas à entrada a transmitir o recado fora necessário insistir com energia. E recorrer ao seu apelido, claro.

— Faça o favor de entrar. — Um indivíduo chupado abriu-lhe a porta.

Tiago levantou-se do banco, ingressou na sala. A secretária situava-se ao fundo da divisão. Entre pastas e papéis, divisou um rosto silencioso e atento de senhora elegante, à luz forte da lâmpada amarela. Os seus traços severos não lhe diziam muito, mas era ela, não tinha dúvidas.

— Avó…

Morgana interrompeu-o com a mão firme, desviou o olhar para o indivíduo de faces escavadas e afirmou numa voz cordial:

— Obrigada, José Manuel, pode retirar-se.

O homem afastou-se e esforçou-se por fechar a porta atrás de si à primeira, mas, como se encontrava perra, teve de a forçar. Quando por fim se ouviu um estrondo seco, Morgana Derves cerrou as pálpebras num gesto de contrariedade.

— Aquela porta… Senta-te, Tiago, tens aí onde.

A cadeira estava inclinada e não permitia uma confrontação directa. Entre ele e a avó, interpunha-se o foco violento do candeeiro.

— Obrigado por me receber.

— Não tinha muita escolha, pois não? Apareceste sem aviso prévio, a agitar o teu nome aos guardas. — Morgana fez uma pausa e perguntou, como se não soubesse já perfeitamente a resposta: — O Instituto da Bóreas tem um telefone, não tem?

— Deve ter. Eu ainda não fui para o trabalho hoje.

— E como é que explicas isso? Houve uma avaria com as vossas máquinas?

— Não, eu é que… Não me sentia capaz de continuar… — Tiago mostrou-se atrapalhado com o olhar intenso da avó, que conseguia atravessar o feixe de luz. Naquela manhã, à entrada do Instituto, decidira dar meia-volta e acabar com a situação. — Há um problema. Achei que lhe devia vir aqui contar. Não é fácil explicar…

— É sobre o teu esquecimento, não é? — interrompeu Morgana. Não tinha tempo a perder.

— Como… já? Já sabe? — surpreendeu-se Tiago.

— Quem é que achas que contou à tua irmã?

Então, concluía Tiago, quando lhe telefonara, Teresa já estava ao corrente. De repente, o abraço que tinham trocado convertia-se num gesto estudado, e o discurso que ela engatilhara perdia naturalidade. Ficou atarantado, sem saber como reagir.

— Então, Tiago? O que é que é que estás à espera que eu faça?

A voz de Morgana não chegava a ser ríspida, mas não permitia dúvidas. As esperanças de Tiago caíram por terra. Tentou outro ângulo:

— Não me tenho andado a sentir bem. Mesmo fisicamente.

— Vamos lá a ver, Tiago. Vieste aqui à procura de quê?

— Eu… eu não me lembro. Não me lembro de nada. Dos meus pais. De si. Não percebo por que me recebe assim. O que quer que tenha acontecido…

— O que quer que tenha acontecido deixou de ter importância porque tu não te lembras: é isso que estás a querer dizer-me?

— Não sei, não é isso. Mas eu nem sei o que é que fiz assim de tão terrível. Como é que me posso justificar se nem sei…

— Nunca te preocupaste em justificar fosse o que fosse. E agora, que não recordas as tuas acções, é que pretendes prestar contas? — Morgana retesou os lábios, no que Tiago viu um gesto de desdém. — Não percas tempo com isso, não vale a pena.

— Como é que me pode dizer uma coisa dessas? Não vale a pena?

— Não, não vale a pena. Queres saber o que eu acho? Aproveita esta amnésia enquanto dura. Toda a vida causaste problemas e honestamente já perdi as ilusões em relação a ti. Vais continuar a causá-los. O que é que se há-de fazer? É assim, está na tua natureza. Se não te lembras do que fizeste, tanto melhor, aproveita. Não me venhas pedir para te refrescar a memória. Há coisas que é melhor não recordar.

Tiago entrelaçava os dedos, para tentar fazê-los parar de tremer. A voz falhou-lhe:

— Acho que foi um erro vir aqui.

— Sim, também acho que foi. É melhor voltares para o Instituto.

Ele levantou-se da cadeira, mas não se decidia a partir. Esperava talvez da avó uma palavra que o redimisse.

— Vou-me embora — anunciou.

— Ouve. Tu és meu neto, Tiago, e eu não sou uma avó desnaturada. Vou continuar a garantir que nada te falte. Mas, se o que esperas de mim é consolo, isso não te posso dar. Segue o meu conselho, vê o esquecimento como uma oportunidade e tenta não te meter em sarilhos.

 

4

Tiago a ver o filme do Rest.2Passara dias à espera de que a ligação de interacção lhe trouxesse respostas, como Marcello indiciara. Agora estava ali, espectador ausente, a ver desfilar uma sequência de episódios descosidos.

Elda reconheceu a primeira cena como se lhe tornasse à memória uma melodia esquecida. Era ela aquela menina loura, de quatro anos talvez, que brincava com Cinira no chão. A mãe entrava no quarto, muito alta, pálida, com os olhos vermelhos. «Mã… Que foi?», perguntava a criança. «Não foi nada.» Júlia Visco sentara-se na cadeira, abatida, deixara cair a bolsa por terra. Encarou a filha por dois ou três segundos. Elda revisitou aquele olhar sofrido da mãe, de que se tinha esquecido no fundo de si. «Não foi nada. O teu avô morreu», ouviu-a dizer de novo. Elda ficava com o brinquedo nas mãos, sem saber o que lhe fazer, e os olhos da mãe ainda fixos nos dela por mais uns segundos. «Não tem importância. Continua a brincar, não foi nada.» Júlia levantava-se, compunha a saia bege com os dedos longos. E saía do quarto.

Sandro Trenas, o pai, chamou-o à casa de banho e apontou-lhe ao espelho o buço escuro sobre o lábio. «Vais tratar disso. Já és um homem.» Bartolomeu tinha doze anos, mas aparentava um pouco mais. Na escola, alguns colegas já tinham barba que se visse, como aquele rapaz chamado César, mais velho do que ele. Bartolomeu tremia enquanto, sem uma palavra, o pai lhe ia passando a bacia, o sabão, uma lâmina. Tinha medo de se cortar, mas teria de se desenvencilhar sozinho, sem indicações suplementares, apenas com uma admoestação para não gastar a água. Raspou com a lâmina o bigode nascente, numa sucessão de gestos que se queriam afirmativos. Olhava de vez em quando para o pai, que assentia com a cabeça. Mas deu um mau jeito com a mão, quase no fim do trabalho. Uma gota de sangue caiu no lavatório, Bartolomeu soltou um queixume, o pai fechou os olhos.

«Tu não percebes nada. Achas que és muito crescida, mas és igualzinha à Mónica. És uma miúda», disse-lhe Óscar, o irmão. Carola devia ter oito anos, ele era apenas dois mais velho do que as gémeas, e tão ruivo como elas. «E tu és um estúpido», reagiu Carola. «Não faças caso», aconselhou Mónica, como se estivesse tudo bem, mas não estava. O pai andava meio desaparecido havia meses; na véspera, Carola tinha-o entrevisto a chegar a casa, nos braços de Virgílio Neto, o amigo de sempre. Desde então, Dara mantivera-se fechada no quarto com ele. «Eu, quando for grande, fujo daqui, vou ser como o pai», vociferou Óscar, que sempre fora um gabarola, «tu, se quiseres, continua a fazer de conta que não está a acontecer nada.» Carola sentiu-se enfurecer, estava pronta para responder, mas Virgílio apareceu nesse momento. «Façam pouco barulho», pediu. Aproximou-se deles, explicou: «O vosso pai tem de descansar.»

Um choro aflitivo enchia o quarto nu: o bebé parecia desfazer-se num berreiro. Um caixote, forrado com três almofadas puídas, fazia de berço improvisado. Vários minutos se passaram assim, até que umas mãos finas pegaram no menino, acolheram-no nos braços. Era uma figura frágil de mulher consumida pelo pigarro, que mal parecia ter força para segurar a criança. Sentou-se na berma de um colchão estirado no solo, deu-lhe palmadinhas, e com um fio de voz começou a acalentá-lo com uma cantiga em espanhol, que Fernão reconheceu de imediato. «Duérmete mi niño», repetiu a mulher várias vezes, como se passar o primeiro verso requeresse um esforço para lá das suas capacidades. O bebé não sossegava. Com os nervos em franja, a mulher começou então a perder o controlo, dava ao filho pancadas cada vez mais fortes. «¡Joder, que te calles!», gritou, exausta, enquanto as batidas se iam transformando numa sova.

A professora deixara-a ali, sentada no banco à saída, havia já quinze minutos. Era a aluna mais madura e mais bem preparada da escola, podia esperar sozinha. Tinha nove anos, mas parecia mais crescida. Alta, com as longas pernas negras a fugir do vestido branco, Brísida entreteve-se a desfazer as tranças do cabelo da Tatiana, a boneca de trapos com que costumava brincar. Quando viu chegar a mãe, uma imensa felicidade tomou conta de si. «Desculpa, filhota, atrasei-me», disse Úrsula Quife, enquanto a apertava num abraço quente. Começaram a caminhada de regresso a casa, e a mãe comunicou: «Hoje vamos ter sobremesa. Queres saber porquê?» Brísida preparou-se para o anúncio, muito compenetrada. «Está confirmado: a mana pode ter bebés.» Brísida fez um grande sorriso, que era o que se esperava dela. «É de família», continuou Úrsula, «é possível que tu também possas, querida. Gostavas disso?» A menina abanou muito a cabeça.

Podia vê-los, aos colegas. Estavam na orla da praia: Elda, Bartolomeu, Carola, Fernão, Brísida. O sol ia alto, batia-lhes em cheio nos corpos, e praticamente não tinham sombra à disposição. Bartolomeu lançou-se à água numa corrida, sob os protestos das raparigas, atingidas pelos pingos de água. «Ó pá»: Carola, a tentar proteger-se, fora chocar contra o tronco nu de Fernão. Com gargalhadas, este mergulhou as mãos na água e atirou-lhe salpicos sem piedade. «Pára! Pára com isso», gritou ela, e desviou-se como pôde. Mas Tugúbio, o cão, surgiu de repente e, enquanto corria mar adentro, atrás dela, molhava-a ainda mais.

 

*

 

«E o lobo é o marido da raposa?», perguntou Elda, enquanto apontava no livro antigo as imagens dos mamíferos. Tinha cinco anos. Estavam sentados à mesa, e o pai riu-se rumorosamente, exclamou: «Isto é que nos saíste esperta!» A mãe, ao lado, repreendeu o marido com um olhar. «Já estás a fazer caras?», rezingou Albano Visco; e, em voz de falsete, como a imitar Júlia: «Cuidado! Não se pode dizer nada à menina!». A mãe explicou, pegando no livro: «Não ligues, Elda. Olha, o lobo é o marido da loba. Vês os lobinhos?» Elda continuou a virar as páginas, a cada pergunta sua novas reacções. «Os vitelos são os filhos, e os bois são os pais», uma enciclopédia em formação. «Mas então…», e concluiu, devagar, numa desastrada tentativa de equilibrar cautela e arrojo, «o pai é um boi!» Ia para virar a cara quando recebeu do pai uma violenta bofetada. Baixou a cabeça, a tentar reter o choro. Albano, irado, começou uma série de imprecações contra Júlia. «É assim… é esta a educação que lhe dás.» A mãe mastigava responsos, de sobrolho carregado. Com o queixo a tremer, Elda olhou para ela. Já conhecia aquele seu hábito de esbugalhar os olhos para impor silêncio.

Bartolomeu encontrou o Licínio na casa de banho da escola, a limpar sangue da boca. O Licínio era um miúdo calado, assustadiço, insignificante. Toda a gente o considerava um estropício. Os outros rapazes chamavam-lhe «o lingrinhas», empurravam-no e pregavam-lhe rasteiras para gáudio da turma inteira, que se ria a bom rir com tais cenas. «O que é que te aconteceu?», perguntou Bartolomeu. O outro não respondeu, virou-lhe as costas. «O meu pai é médico. Posso ajudar», insistiu Bartolomeu. E Licínio lá o deixou ver a boca, explicar-lhe o que devia fazer. «Meteram-se contigo?», perguntou Bartolomeu no fim. Sentia-se desconfortável e a pergunta era estúpida, já sabia a resposta e nunca fizera nada quanto a isso. Como deveria agir? Com apenas treze anos, era já um dos rapazes mais fortes do estabelecimento. «Se me disseres quem foi, vou falar com ele», garantiu.

Carola escutava atrás da porta, com a orelha colada à fresta. Havia minutos que o pai gemia, palavras ininteligíveis. Virgílio insistia: «Não lhes disseste nada, pois não, Pedro?» A avó não devia deixá-lo trancar-se dentro do quarto com o pai naquelas condições, pensava ela. Ele tinha de descansar, com certeza ia levar algum tempo a recuperar. A polícia, dissera Óscar, fora a polícia a deixá-lo assim. Mónica surgiu no fundo do corredor e pediu-lhe por gestos que se aproximasse. «Ele está no quarto com o pai», revelou Carola em surdina. «Eu sei», respondeu a irmã, «a avó quer falar connosco.» Subiram as duas para a saleta do segundo piso. Óscar estava a um canto, ar zangado, os braços cruzados. Na cadeira de baloiço, Dara acolheu as gémeas com um sorriso reconfortante. Passou a mão pelas testas das duas, à vez. «Ouçam, meninas. Têm de se preparar… O vosso pai não está bem.»

«Es que no puedo más», justificou-se a mulher numa lamúria. Era uma noite mal iluminada pela lua. Fernão ainda não teria nem dois anos, os ruídos e as sombras da floresta inquietavam-no. Foi passado para os braços de outra mulher, de braços firmes, uma bata que cheirava fortemente a sabão azul. «Olá, pirralho», disse Glicínia, com uma voz generosa. «Vamos cuidar de ti, pois vamos.» O rapazito não percebia aquela língua, quis voltar para os braços da mãe. No entanto, a espanhola não o recebeu de volta; deu-lhe um beijo na cabeça: «Adios mi amor.» A portuguesa perguntou devagar à outra mulher: «Quer a morada? A morada de minha casa? Quer?» Mas a mãe foi definitiva: «No lo quiero saber», e afastou-se limpando as lágrimas.

«Mas onde é que ela está?», perguntou outra vez Brísida, desconfiada. Naquela manhã, Verónica não tinha ido à igreja com eles. «A mana tomou uma decisão», sussurrou Horácio Quife, o pai. «Um dia vais compreender.» Embora o serviço já tivesse terminado e o padre tivesse abandonado o recinto, Úrsula mantinha-se ajoelhada em frente ao altar, amargurada, de cabeça baixa. Pareceu à menina que a posição devia deixar a mãe dorida. Envergavam os fatos de domingo, tinha havido missa, deveriam ir almoçar ao centro social com familiares e amigos. Mas daquela vez dirigiram-se para casa, num silêncio que ela não sentia coragem de romper. Horácio passara-lhe o braço pelo ombro e, com um sorriso, piscara-lhe o olho. A mãe, percebendo-a abalada, baixou-se e deu-lhe um beijo na bochecha. «Tu é que és o meu tesouro», suspirou.

Estavam os seis estendidos nas toalhas, o sol escaldava. «O que me apetecia era um gelado», disse Brísida. «Posso ir ver à vila», propôs Bartolomeu. «O que é que querem?» «Um cornetto de morango para mim», pediu Carola. «Mas com este calor chegam aqui espapaçados», queixou-se Fernão. «Ainda temos as sandes, estão na mochila», lembrou Carola, «a menos que tu já tenhas comido tudo.» «Espera, não havia também alperces?», replicou ele. E Elda, de repente: «Esqueci-me dos alperces em casa!»

 

*

 

«Então não vais dar um beijo ao pai?», perguntou Júlia, com um sorriso artificial. Girou a cabeça em torno, viu-se obrigada a encolher os ombros perante os convivas risonhos, indefesa face aos caprichos da filha. «Já se viu tal coisa?…» Elda dirigiu-se àquele corpo possante que representava o inimigo. Mas o pai vinha num dia bom. Saudou-a com umas foscas que fizeram rir muito toda a gente, depois pegou-a pelos braços e fê-la voar, enchendo-a de cócegas. «Ui, é uma perdição pela miúda…», comentou a mãe para os colegas do marido. Elda, afogueada, sorriu com embaraço para a assistência e escapuliu-se para trás do sofá, onde se encontravam duas crianças da sua idade. A mãe veio ter com ela um pouco depois. «Ainda estás amuada?», perguntou, acocorando-se. Na véspera, após uma representação teatral na escola, o pai fizera pouco dela em frente aos colegas, chamara-a «lorpa» e «tosca», até Júlia se mostrara incomodada. Mas agora a mãe endereçava-lhe um sorriso oblíquo, como que a apelar a um esforço da sua parte. «Sabes que o teu pai nunca teve quem o ensinasse a ser pai», disse. Era uma frase repetida.

Bartolomeu foi falar com César, que tinha corpo feito e voz grossa, mas não lhe metia medo. «Magoaste o Licínio», disse-lhe num registo neutro, a constatar um facto, «o tipo não tem músculo…» César olhou-o de alto, como se o medisse. Bartolomeu era mais novo, mas já dera provas de valentia e era bem relacionado, com amigos em todas as turmas. «Estás a falar do Lingrinhas? O gajo fez por apanhar…» Explicou-lhe em voz baixa: «Pôs-se com umas atitudes esquisitas… sabes a fama que ele tem…» Bartolomeu tentou compreender aquelas meias palavras. «Seja como for, não é motivo. Sabes bem que ele não tem como se defender.» César encarou-o: «Se eu fosse a ti não o protegia muito», avisou, «ainda se começam a dizer coisas.» Era uma cobardia, pensou Bartolomeu, mas não replicou. César deu-lhe uma pancada amigável nas costas e acenou-lhe com a cabeça, como se tivessem chegado a acordo.

Mónica não quis entrar, e Dara amparou-a contra o vestido. Já Carola espreitou pela porta entreaberta, a medo. No quarto, a um canto, Óscar dirigiu-lhe um olhar duro. Isso encorajou-a a empurrar a porta completamente e a dar três passos em direcção à cama. Quis convencer-se de que a respiração pesada do pai era um sinal de vida. Mas, quando Pedro Jurado virou o rosto na sua direcção, os olhos vítreos eram já de um morto, que empregava as derradeiras forças para soprar o seu nome. Transida de susto, sentiu rolarem-lhe pelo rosto lágrimas que nem tinham tido tempo de se formar. Desejava pegar na mão dele, ou dizer alguma coisa, mas em vez disso ficou pregada ao chão, cheia de vergonha daquele pranto mudo, que minava os esforços do pai para lhe falar. Depois, desesperada, num rompante, correu em direcção ao corredor.

Fernão tropeçou ao tentar subir para a cadeira. Suporia talvez que tinha mais força no braço do que na realidade tinha. Glicínia Marte interrompeu as suas lides para socorrê-lo e sentou-o à mesa com boa disposição. «Fome», queixou-se a criança, num português que melhorava a cada dia. A mulher foi buscar um naco de pão. «Daqui a pouco já comes», assegurou, a limpar o suor do rosto, toda vermelha. «Hás-de ficar fino», prometeu, com um sorriso. O menino, de vez em quando, ainda a olhava com curiosidade: «Mi madre?», perguntava ele. «Sou eu. Sou eu a tua mamã», disse Glicínia. Um outro menino entrou na divisão nesse momento. «Brinca com o mano, Jacinto», pediu a mulher, «que eu ainda tenho serviço para fazer.»

Sentiu uma dorzinha na barriga durante a aula. Tinha dez anos e meio, Úrsula falara-lhe longamente da menstruação, explicara-lhe como tinha acontecido consigo, com Verónica. Nada tinha a temer, era um processo natural por que passavam todas as raparigas na puberdade. Brísida pediu à dona Carlota se podia ir à casa de banho. A aula tinha começado havia apenas dez minutos, e a professora não acedeu sem uma leve repreensão. Brísida tentou não correr, mas sentia o coração a bater. Aquele era o seu primeiro dia como mulher. Empurrou a porta com a figura da menina, feliz, a imaginar como viria a anunciar a notícia à mãe ao fim do dia. Mas era um falso alarme.

A tarde parecia não avançar nunca, tinham o tempo todo à disposição e não havia ninguém no areal além deles. Bartolomeu nadava no mar, Brísida dormia. Elda sugeriu que jogassem ao stop. Nomes próprios, cidades, animais, objectos. «Quem começa?», perguntou Carola. «Pode ser ele», propôs Fernão, e apontara uma mão na direcção do terceiro rapaz.

 

*

 

«Ele vai embora. Vamos ficar sozinhas», prometia a mãe. «É o que queres, não é?» Mas ouviram a porta de casa bater, Júlia pôs logo um dedo em frente à boca. Elda olhou para o prato: ainda nem ia a meio da refeição. Alçou a cabeça para dar um beijo ao pai. Era um daqueles dias em que voltava para casa de testa enrugada, os lábios franzidos, com um resmoneio imperceptível. Sabia o que isso significava. Contou e recontou os dedos da mão esquerda debaixo da mesa: um truque para se convencer de que a situação se ia aguentar. Engolia as garfadas sem mastigar. Talvez, se conseguisse comer tudo, a mandassem para o quarto a tempo. Mas Albano arrastou o prato com um gesto arreliado. «O que foi desta vez?», perguntou Júlia. E o pai deu um grito, com uma careta, «Está frio, porra!» A mãe alçou-se: «Eu vou aquecer.» «Oh! Agora é que te lembras disso!» A discussão estava instalada, e quando assim era pouco havia a esperar. Se pedisse para se levantar, seria envolvida na disputa. Cerrou os dentes com força, contou os bagos que lhe cabiam no garfo. A dado momento, viu pelo canto do olho um objecto qualquer a voar em direcção à cabeça da mãe. Levantou-se, assustada. «Toca a sentar!», ordenou o pai, com os olhos faiscantes, «ou queres levar uma bofetada?»

Licínio passou pelo corredor quando o grupo de alunos ia a entrar para a sala. Bartolomeu viu que o rapaz o identificara e lhe fazia um aceno com a cabeça. Percebeu que os outros estavam a olhar para eles e perguntou àquele miúdo esquisito, num tom desabrido: «O que é que queres?» Licínio não soube o que responder, mas logo vários colegas pararam de conversar para observar a cena. «Não quero nada…», respondeu o rapaz, constrangido, «só que…», e levou a mão à boca, onde ainda era evidente a ferida do murro de César. «Se não queres nada», cortou Bartolomeu, num tom brusco, «o melhor é pores-te a milhas.» Os olhos daquele rapaz miúdo denotaram, mais do que susto, um sentimento de desamparo, como se tivesse sido traído. Tornava-se insuportável olhar para ele. «Desaparece, já disse», gritou Bartolomeu, sobre os risos cúmplices dos colegas, «ou quem te parte a boca sou eu… Lingrinhas!»

Carola não sabia como fazer para continuar a viver. O pai falecera dois dias antes. A avó deixara-os sozinhos na saleta. A um canto, Óscar mantinha-se absorto, o olhar perdido no tecto. Mónica refugiara-se num livro de histórias. Então, decidiu contrariar as ordens da avó. Desceu os degraus para o primeiro piso e aproximou-se do quarto onde o pai expirara. À porta fechada, Dara discutia com Virgílio, que continuava naquela casa; encostando o ouvido à madeira, as vozes tornavam-se perceptíveis. «E se o drogaram?», insistia Virgílio. «Não é só o GRUPO, Dara. A história do Albernaz…» Dara respondeu: «Se o deixaram sair é porque não há perigo. Por favor, ninguém o associa a um atentado de há quase trinta anos!» Virgílio retorquiu: «Estamos a falar da morte do presidente!» Ela alçou a voz, furiosa: «O Pedro não falou. Ponto final.»

Fernão andaria pelos nove ou dez anos. Como era seu costume, passara o fim da tarde no centro juvenil com os amigos de Jacinto, apesar de serem todos vários anos mais velhos do que ele. Os dois irmãos regressavam agora para casa. «A mãe pediu para passar na mercearia», lembrou Jacinto, «são precisas coisas para o mano.» Era difícil para Fernão habituar-se àquela novidade. O novo bebé não era um irmão de sangue. Glicínia explicara-lhes, na véspera, que a mãe de Valter, uma prima afastada, tinha morrido, e que planeava tomar conta do recém-nascido como seu próprio filho. «Mas então…», perguntou Fernão a Jacinto, «temos de fazer de conta que ele é mesmo filho dela? Como nós?» Jacinto estacou, olhou para Fernão com uma expressão de surpresa. «Tu não te lembras, pois não?», perguntou. «Não me lembro de quê?» Por mais que insistisse, o irmão mais velho não respondeu. «Nada, esquece. É melhor.»

«Paciência», disse Horácio Quife, dando por concluído o assunto, «não é um drama.» Brísida tinha quinze anos, o veredicto caíra. Mantinha-se muito direita, sem pronunciar uma palavra. Como se fosse necessário acordar a mulher, o pai acrescentou, mais em direcção a ela do que a Brísida, «Claro que gostávamos que também pudesses ter filhos, mas o que nos importa é que tu estejas bem. São as leis da natureza… as leis destes tempos.» Úrsula, com os olhos pisados, aclarou a garganta. «É a vontade de Deus. Temos de a aceitar», disse. Brísida pediu licença para se retirar, dirigiu-se ao seu quarto. Na cómoda, sentada, estava a Tatiana, a boneca de trapos com que costumava brincar quando era criança. Pegou na boneca com as duas mãos e ficou uns segundos a olhar para ela. Depois, abriu o baú que guardava a um canto da divisão e atirou-a lá para dentro.

«O cão está a encher-me de areia!», queixou-se Brísida. Carola chamou Tugúbio à parte, trocou um olhar cúmplice com Fernão. «É altura de irmos andando, não é?», perguntou o rapaz. «Já!?», espantou-se Bartolomeu, «eu ainda queria dar mais uma banhoca.» Elda vestiu uma blusa. «Já corre uma aragem», notou Carola, como se traduzisse o seu gesto. Era o fim da tarde. «Mas para mim é o melhor momento», disse Bartolomeu. «É verdade», concordou Elda, «está-se tão bem. Este silêncio, a praia deserta… só nós os seis.»

 

5

A mãe a acalentá-lo ao colo, em Lisboa; uma disputa de miúdos com Teresa, em Copenhaga; o pai a repreendê-lo pelos erros de carácter, em Milão; a avó a expulsá-lo de casa e a mandá-lo para o Rio de Janeiro; uma paixoneta de Verão: qualquer coisa, na verdade. Mas nenhuma dessas cenas, que Tiago criara na imaginação, lhe fora entregue.

— Não quero, deixa-me em paz! — ouvira gritar Carola pouco antes, na sala.

Como reivindicar o seu direito à desilusão quando os colegas se mostravam tão desestabilizados com as memórias que o Rest.2 resgatara ao esquecimento naquela ligação? Não ousaria. Em público, o seu comportamento não destoou do dos demais impulsores, que, entre a vergonha e o pudor, desejavam apenas recolher-se.

Só Marcello parecia não medir as consequências das revelações. No gabinete, mantinha um ar ausente, vagamente satisfeito, como se o objectivo da sessão fantasmagórica tivesse sido alcançado. «Tudo vai ficar bem», afiançara mais de uma vez. E era tudo o que tinha a dizer-lhe.

— Não percebo. Como é que pode reagir assim? — indignava-se Tiago — Não viu o que aconteceu aos meus colegas? Parece que não lhe importa nada.

— Eu não criei estas lembranças. Já estavam ali, à espera — Marcello falava lentamente, como se digerisse a acusação. Ele mesmo sugerira, no fim daquela sessão, que fizessem um pacto para não revelar o que fora tornado comum. Percebia que eram coisas íntimas, delicadas. Não era indiferente. — Meu trabalho não é proteger os vossos segredos. Fazer finta que coisas não existem é pior.

Tiago não respondeu. Os seus pensamentos eram um turbilhão. O que Marcello dizia talvez fosse verdade; e confrontar-se com as suas próprias lembranças perdidas era aliás o que ele desejava. Mas referia-se a outra coisa, a um sentimento de compaixão, de identificação, a que o tutor parecia imune. Por um momento, sentiu que não ia aguentar, que se ia desfazer. Filho da mãe, pensou, para se dar força. E ia para dizê-lo, quando:

— Desculpe, Marcello, preciso de falar consigo — era Brísida, grave, à porta.

— Ah, Brísida. Esperas. Chamo-te quando acabo com Tiago.

Mas, em vez disso, a rapariga entrou e fechou a porta atrás de si.

— Não. Chega de mistérios. Já percebi o que se passa. — Olhou para Tiago, a ver se ele estava a par da maquinação, e depressa percebeu que não. — A sexta memória… era da praia de Odeceixe, a primeira ligação. Não me lembro de ter vivido aquilo, mas também na altura foi tudo tão confuso, é normal. O que eu sei de certeza é que o Tiago não estava ali, não podia recordar-se daquilo. Aquelas memórias eram do Flávio Hirpo.

— Do Flávio? — Tiago mostrou-se baralhado. O nome de que Elda lhe falara

— O Tiago nunca se devia ter ligado, pois não? — Brísida juntou as peças do puzzle. — O sexto impulsor já existia, e o Marcello não tinha desistido dele.

Marcello limpou os óculos a um pano, em silêncio. Enfim, reconheceu:

— Tiago tinha outra função.

— Era o intermediário — decifrou Brísida. — Um suporte.

— Um homem de palha… — murmurou Tiago.

— Sim, Tiago era o portador do fantasma de Flávio. — Marcello não escamoteava a verdade: a participação dele no projecto era imprevista e indesejável. — O projecto precisa dos seis impulsores originais, precisa de Flávio. Tiago sempre sabia, até perder a memória. Mas uma ligação passou-se mal, Flávio desapareceu.

— O apartamento, em Lisboa. Mas porquê…? O que se passou ali?

— Depois Tiago entrou no Rest.2 — retomou Marcello, ignorando Brísida. — Passei dias sem saber onde está Flávio, fui a Copenaga… Agora o Curriculum mostrou.

— O Curriculum? O que nós vimos hoje… — Brísida parecia assustada. — Não me diga que usou o nosso Curriculum para confirmar que o Flávio… Mas isso é perigoso!

Tiago mergulhou a cara nas mãos. Não percebia do que falavam.

— Precisava saber — garantiu Marcello. — O fantasma de Flávio está associado a Tiago. Está dentro dele, a deixá-lo doente.

Trazia um fantasma alheio dentro de si: aquilo tinha de ocupar espaço, memória.

— E não dá para reverter? — ousou perguntar enfim Tiago. — Volta a ficar tudo como dantes…

— Tu como portador não andaste bem, nunca funcionou — afirmou Marcello. — Mas assim não pode continuar. Enquanto ele está dentro ti, tu fica sempre mais fraco. Vês já que não dormes, não tens energia. Trabalho em uma solução.

Brísida sentara-se direita na cadeira ao seu lado, pronta a contribuir para resolver o problema; ninguém diria que acabara de passar por uma exposição de lembranças íntimas dolorosas. Pareciam todos mais fortes do que ele.

— Então, se o Flávio conseguir voltar ao Rest.2… — calculava ela.

— Se Flávio consegue voltar, cento por cento, então o projecto funciona.

 

*

 

Tiago fechou a porta do gabinete e avançou pelo corredor. Estava sozinho no mundo, sem aliados: com a família não podia contar e, no Instituto, era como se não existisse. Ao passar na sala de impulsão, notou luzes acesas. Bartolomeu ainda se encontrava sentado à grande mesa, com o queixo assente nos punhos.

— Ele ainda ficou lá dentro, com a Brísida — Bartolomeu estremeceu. Tiago encostara dois dedos à porta, preparava-se para dar meia-volta.

— Estava à tua espera. Queria saber… Tudo OK contigo?

— Sabes como é quando se leva com um clarão de luz nos olhos? — Aproximou-se, a equacionar cada passo dado. Tinha vontade de partilhar o que descobrira, mas concordara em não divulgar nada. — Pois, eu não sei. Continuo às escuras.

— Se calhar, tens sorte. Hoje foi um bocado violento.

— Eu vi. Que mau. Percebi bem? O Fernão… adoptado, não é? E aquilo da Carola…? — Bartolomeu arrancou um suspiro do fundo do peito. Tiago tentou aligeirar: — Bem, pelo menos tu não descobriste nada de horrível.

— Achas? A mim pareceu-me bastante feio. — De olhos baixos, como se nem pudesse dar palavras à experiência. — Fui eu, percebes, não foi mais ninguém…

Tiago não medira aquele factor: as memórias dos outros eram de acontecimentos vividos, não propriamente de acções pessoais. Com Bartolomeu era diferente.

— Apetece-te falar disso?

— Não sei. Tinha-me esquecido. Foi uma cobardia, maltratei um rapaz que era mais fraco do que eu. Pior, foi à traição, tinha prometido ajudar. Quer dizer, eu achava indecente o que estavam a fazer ao miúdo e no entanto… fiz coro com os outros.

— Mas se o defendesses, ias levar por tabela. O outro avisou-te. Eles iam…

— E então, isso é uma desculpa?

— É um contexto. Também eras mais novo. Achas que hoje fazias a mesma coisa?

— Se eu te disser que não sei?

Ficaram os dois em silêncio, embaraçados. Tiago sentou-se à mesa. De repente, o rumo daquela conversa parecia decisivo, e ele nem saberia dizer porquê.

— A verdade é que tive medo deles — reconheceu Bartolomeu. E, pela primeira vez, confessou algo que não ousara revelar nunca, nem a Carola: — Tenho sempre medo do que os outros vão pensar de mim. Os meus pais, os professores, o Conselho… todos cheios de expectativas que eu sinto que posso desapontar num minuto. Até é mais que expectativas, é uma certeza, percebes?, uma certeza que eles têm e que eu não tenho. Mas eu… Sinto-me sempre à beira de dar um passo em falso, de estragar tudo.

Tiago olhava para ele como para um extraterrestre. Bartolomeu retractou-se:

— Desculpa, não sei porque é que disse isto. É um período complicado para mim.

— Não, espera… Se queres que te diga, desde que isto me aconteceu, é a primeira vez que alguma coisa faz sentido na minha cabeça.

Só uma intuição, um palpite. Bartolomeu tinha um olhar intenso, impossível de aguentar. Mas ele aguentava.